A demanda por embalagens com maior desempenho técnico, melhor apresentação visual e menor impacto ambiental tem movimentado o mercado de papel-cartão. Globalmente, esse segmento soma cerca de 50 milhões de toneladas por ano, sendo que aproximadamente 80% do volume mundial de cartões virgens é composto por cartões brancos. No Brasil, o consumo aparente gira em torno de 800 mil toneladas, com estimativa de que mais da metade desse volume seja formada por cartões de fundo claro ou branco.

É nesse contexto que a Klabin amplia sua atuação com a linha Advance®, família de papel-cartão branco voltada a aplicações que demandam resistência estrutural, qualidade de impressão e eficiência em processos industriais de conversão e envase. A solução atende diferentes segmentos, incluindo alimentos, bebidas, alimentação fora do lar, cosméticos e farmacêutico.

Produzida na Máquina de Papel 28, a MP28, instalada na Unidade Ortigueira, no Paraná, a linha tem capacidade de até 460 mil toneladas anuais. A estrutura foi desenvolvida com alto grau de automação e flexibilidade para produzir cartões brancos em diferentes gramaturas, além de outros produtos do portfólio da companhia.

Segundo a Klabin, a empresa é a maior produtora de papel-cartão do Brasil e uma das maiores das Américas. A companhia também está entre os principais produtores globais de cartões para embalagens de líquidos e é a única empresa da América Latina a atuar nesse segmento com produção local.

Em entrevista ao Food Connection, André de Marco, gerente de desenvolvimento da Klabin, explica como a linha Advance® se conecta à estratégia da companhia, quais são os diferenciais técnicos do papel-cartão branco e por que o setor de alimentos aparece como uma das frentes relevantes para essa expansão. A Klabin é Patrocinadora Ouro do Congresso Fispal Tec, no qual De Marco apresenta, em 16 de junho, a palestra “Embalagem com Papel-Cartão Branco: Do Projeto à Realidade que Funciona”.

Food Connection: Qual é a estratégia da Klabin ao ampliar sua atuação no mercado de papel-cartão branco com a linha Advance®?

André de Marco: A Klabin já tinha uma linha bastante completa de papel-cartão. A companhia atua em diferentes mercados, como embalagens para alimentos, copos, congelados, bebidas e embalagens para líquidos.

O que acontecia é que alguns segmentos, como cosméticos, medicamentos e determinadas embalagens de alimentos, demandavam um verso branco. Em alguns casos, o verso kraft natural é valorizado, inclusive por transmitir uma percepção mais sustentável. Mas existem aplicações em que o branco é uma exigência do mercado, seja por padrão visual, por posicionamento de marca ou pela experiência de consumo.

Com a MP28, que é a nossa terceira máquina de cartão, a Klabin passou a ter uma plataforma preparada para essa flexibilidade. A decisão de incluir o cartão branco no projeto veio de uma estratégia de longo prazo. O objetivo era não ter restrição para atender nenhum segmento relevante dentro do universo de papel-cartão.

Food Connection: Então a linha Advance® nasce para complementar o portfólio e abrir novas frentes?

André de Marco: Sim. A estratégia foi ampliar o acesso a mercados de maior valor agregado e atender aplicações em que o cartão branco é necessário. A primeira produção ocorreu no fim de 2024 e, desde então, o produto passou por testes em gráficas, equipamentos de fechamento de cartuchos e linhas de alta velocidade.

Hoje, a linha já está aprovada em dezenas de donos de marcas, em setores como alimentos, cosméticos e farmacêutico. Isso mostra que não é apenas um projeto industrial. É uma solução que saiu do desenvolvimento e já está sendo validada pelo mercado.

A Klabin é a maior produtora de papel-cartão do Brasil e uma das maiores das Américas. Por isso, fazia sentido ampliar a presença em segmentos nos quais ainda havia alguma limitação de aplicação, especialmente quando falamos de produtos com alto padrão visual e técnico.

Food Connection: Por que o cartão branco tem ganhado relevância para embalagens?

André de Marco: A principal vantagem do verso branco está relacionada à aparência e à percepção de qualidade. Imagine abrir uma embalagem de perfume ou de um produto premium e encontrar o verso escuro. Dependendo do segmento, isso pode causar estranhamento. Em outros mercados, o kraft natural pode ter valor, mas há aplicações em que o branco é uma exigência estética.

O ponto é que a Klabin não queria oferecer apenas um cartão branco. A proposta foi desenvolver um cartão branco com características adicionais, como estrutura, maquinabilidade e desempenho em linha. Isso permite atender aplicações que exigem boa impressão, resistência e eficiência nos processos industriais.

Food Connection: Quais são os principais diferenciais técnicos da composição da linha Advance®?

André de Marco: O diferencial está no equilíbrio entre fibras. A fibra curta contribui para acabamento e qualidade de impressão. Já a fibra longa é fundamental para resistência, desempenho em linhas automáticas e aplicações que exigem maior estrutura.

A Klabin é a única produtora da América Latina de papel-cartão branco com mix de fibras longas e curtas. Esse ponto é importante porque o mercado brasileiro, historicamente, não oferecia cartão branco com essa composição. Em muitos casos, o produto branco disponível era feito apenas com fibra curta.

Além disso, usamos a pasta mecânica termoquímica branqueada, a BCTMP, que ajuda em propriedades como rigidez e empilhamento. Dependendo da aplicação, ajustamos a composição. Uma bandeja termoformada pode exigir mais fibra longa. Uma embalagem que precisa de maior empilhamento pode demandar mais BCTMP. O objetivo é usar a fibra certa para cada necessidade.

Food Connection: Como esse mix de fibras impacta o desempenho da embalagem?

André de Marco: Em uma embalagem múltipla de bebidas, por exemplo, é preciso resistência para que o material não rasgue. Em embalagens com abertura tipo zíper, a fibra longa ajuda a garantir que a abertura aconteça no ponto correto, sem romper antes da hora.

Ela também contribui em aplicações com relevo, como braille ou elementos de marca. Quando se quer fazer um relevo mais pronunciado, a fibra longa ajuda no desempenho do material.

No caso da impressão, a fibra curta é muito importante, porque melhora o acabamento. Então, a estrutura do cartão permite combinar esses atributos: resistência, rigidez, qualidade gráfica e desempenho em linhas de conversão e envase.

Food Connection: Quais são as principais aplicações da família Advance®?

André de Marco: A família Advance® reúne diferentes soluções. O Advance® Print é indicado para aplicações que exigem elevada qualidade gráfica, como embalagens farmacêuticas, cosméticos, chocolates e bombons.

O Advance® Cup atende ao segmento de alimentação fora do lar, sendo utilizado na produção de copos, potes e outras embalagens para alimentos e bebidas.

O Advance® Tray é voltado a bandejas de alimentos que demandam alta resistência na termoformagem e podem transitar do freezer ao forno.

Já o Advance® Pak foi desenvolvido para embalagens de bebidas e alimentos que utilizam processos de envase asséptico.

Cada aplicação tem uma demanda técnica diferente. Por isso, a composição do cartão precisa considerar impressão, resistência, rigidez, contato com alimento, desempenho em linha e experiência do consumidor.

Food Connection: A linha Advance® pode ser adaptada para demandas específicas da indústria?

André de Marco: Sim. A Klabin trabalha tanto com produtos de portfólio quanto com desenvolvimento sob demanda. Muitas vezes, são adaptações pequenas. Em outros casos, é uma mudança na forma de uso. E há situações em que começamos praticamente do zero, buscando fibras, composição e estrutura até chegar ao produto final.

A área de desenvolvimento existe justamente para isso. Conversamos muito com donos de marcas e transformadores para entender a necessidade de cada aplicação. Depois, o projeto passa por etapas de desenvolvimento, testes e aprovação.

O mercado de embalagens é muito técnico. Não basta o material ser bonito ou ter uma boa proposta de sustentabilidade. Ele precisa performar na máquina, proteger o produto, atender normas e fazer sentido para a cadeia produtiva.

Food Connection: Como a MP28 contribui para essa flexibilidade produtiva?

André de Marco: A MP28 foi projetada com alto nível de controle e flexibilidade. Ela permite produzir cartões brancos em diferentes gramaturas e também outros produtos, como o Eukaliner®, dentro de uma lógica híbrida de produção.

Essa flexibilidade é importante porque a produção de cartão exige controle de umidade, gramatura e espessura ao longo da largura da folha. Também é necessário ter trocas rápidas e reduzir perdas no processo produtivo.

A máquina foi pensada para o presente e para o futuro. Há espaço previsto para possíveis evoluções tecnológicas, como aplicação de tratamentos no verso do cartão. Isso mostra uma visão de longo prazo, considerando as novas demandas do mercado de embalagens.

Food Connection: No caso de alimentos, quais certificações e controles são relevantes?

André de Marco: Quando falamos de alimentos, não estamos falando apenas do produto final, mas também do processo. A Klabin tem certificações para contato com alimentos e atende normas reconhecidas internacionalmente, como FDA e BfR, além de exigências específicas de determinados mercados.

Também há certificações relacionadas ao processo produtivo, como FSSC 22000, que reforçam o controle em toda a produção. Isso é importante porque, para alimentos, o material precisa ser seguro, rastreável e produzido em condições controladas.

Além disso, temos certificações florestais, como FSC, que garantem cadeia de custódia e origem responsável das fibras. Em alguns casos, também há certificações voltadas a mercados específicos, como a América do Norte.

Food Connection: Como a sustentabilidade entra na estratégia da linha Advance®?

André de Marco: Sustentabilidade é uma discussão que passa por vários pontos. Começa na origem da fibra, com florestas plantadas e certificadas, e passa pela produção, pela matriz energética, pelas emissões e pela possibilidade de desenvolver embalagens com melhor desempenho ambiental.

Para os clientes, isso importa porque a embalagem entra na conta ambiental da cadeia. Há donos de marcas que avaliam as emissões dos fornecedores para calcular suas próprias metas. Se o cartão tem menor emissão, origem rastreável e permite usar menos material sem perder desempenho, isso gera impacto positivo para toda a cadeia.

Também existe uma demanda crescente por rastreabilidade. A Klabin está preparada para responder a pedidos de clientes que querem saber a origem da madeira utilizada na produção do papel-cartão. Esse nível de controle tende a ser cada vez mais relevante para o mercado.

Food Connection: A substituição de materiais de maior impacto por papel-cartão deve ganhar força?

André de Marco: Esse movimento existe, mas precisa ser tratado com responsabilidade técnica. O plástico, por exemplo, entrega barreira e tem custo competitivo. Então, quando falamos de substituição, é preciso desenvolver tecnologias que mantenham a proteção do alimento e o desempenho da embalagem.

A Klabin trabalha com soluções de barreira para gordura e umidade, por exemplo, que permitem aplicações em embalagens de alimentos sem necessariamente recorrer a determinados materiais. Mas cada caso precisa ser analisado. O desafio é garantir segurança, desempenho industrial e viabilidade ambiental.

Food Connection: Qual é a importância do mercado de alimentos para essa estratégia?

André de Marco: Alimentos são uma frente muito relevante para a Klabin. Quando falamos de copos, potes, bandejas, embalagens para líquidos e cartuchos, estamos falando de aplicações diretamente ligadas ao setor.

A linha Advance® foi pensada também para esse mercado. Ela combina qualidade gráfica, resistência, estrutura e desempenho em processos industriais, que são pontos fundamentais para embalagens de alimentos e bebidas.

O avanço do papel-cartão branco não é apenas uma mudança visual. Ele responde a demandas de eficiência, segurança, sustentabilidade e experiência de consumo. É essa combinação que deve orientar o desenvolvimento das embalagens nos próximos anos.