A indústria de alimentos e bebidas enfrenta desafios cada vez mais complexos em um cenário global marcado pela insegurança alimentar e mudanças climáticas.

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas, mais de 700 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar globalmente. Na América Latina, esse número representa entre 6% e 11% da população, variando conforme a situação macroeconômica de cada país.

“A insegurança alimentar não significa apenas fome absoluta, mas sim não saber quando será a próxima refeição”, explicou Suelma Rosa, vice-presidente de assuntos corporativos da América Latina da PepsiCo, destacando que este é “um dos temas mais críticos e urgentes que encontramos no mundo hoje.”

No Brasil, programas como o Merenda Escolar têm papel crucial na redução da insegurança alimentar. No entanto, períodos de descontinuidade desses programas resultaram em aumentos significativos nos índices de insegurança alimentar no país.

O papel estratégico da indústria alimentícia

A PepsiCo, uma das maiores empresas do setor, apresentou suas estratégias durante o Congresso Fispal Tec 2025, revelando como tecnologia, ciência e inteligência artificial estão remodelando a produção de alimentos.

A executiva enfatizou que o papel da indústria de alimentos combina dois aspectos: garantir a segurança alimentar e produzir alimentos seguros. “A indústria é capaz de estabelecer processos que garantem longevidade e qualidade do alimento seguro, permitindo que ele viaje a lugares mais distantes”, afirmou.

Nesse contexto, Suelma destacou três pilares essenciais:

  1. Processos que garantem longevidade e qualidade.
  2. Acessibilidade dos alimentos.
  3. Aspectos nutricionais adequados.

A palestrante traçou um paralelo histórico entre métodos tradicionais de conservação de alimentos e as tecnologias atuais. “Todos os processos que conhecemos em casa, como salgar a carne ou congelar os alimentos, foram tentativas do ser humano de manter o alimento disponível por mais tempo”, explicou.

Com a revolução industrial, a indústria alimentícia foi pioneira em incorporar avanços tecnológicos. Hoje, estabilizantes e conservantes são desenvolvidos após rigorosos testes científicos e regulamentação governamental, carregando “um nível de complexidade tecnológica e biociência de altíssimo padrão”.

Inovação em embalagens e sustentabilidade

Suelma abordou também a importância das embalagens na conservação dos alimentos. “O melhor lugar para guardar o alimento é dentro da sua própria embalagem, porque ela foi desenvolvida para aquele produto”, afirmou. Segundo ela, o plástico revolucionou a indústria alimentícia nas décadas de 50 e 60, trazendo proteção e manutenção das características dos alimentos por mais tempo.

A executiva destacou que o desafio atual é “diminuir o uso do plástico onde possível e garantir circularidade”, assegurando que o material retorne ao seu destino adequado, evitando poluição de mares e oceanos.

Mudanças climáticas e agricultura inteligente

As alterações climáticas representam outro desafio significativo para a segurança alimentar. “Quando você perde previsibilidade, o produtor agrícola não tem capacidade de saber quando ele planta e quando ele colhe. É isso que é o impacto imediato das mudanças climáticas no sistema alimentar”, explicou Suelma. 

A PepsiCo tem investido em variedades genéticas mais resistentes e que utilizam menos água, além de desenvolver tecnologias para facilitar a vida dos agricultores parceiros. “A inteligência artificial está presente no dia a dia e tem ajudado a evoluir essa capacidade”, mencionou, citando como exemplo sistemas que fornecem informações delimitadas a áreas específicas, auxiliando decisões sobre irrigação.

A empresa mantém relacionamentos de longo prazo com seus produtores, alguns durando décadas. Suelma citou exemplos como as fazendas próprias da marca Quero Coco, onde são produzidos coco e cacau na mesma área como lavoura integrativa, uma prática de agricultura regenerativa que ajuda na conservação do solo.

“Existe muito mais ciência por trás de cada saquinho de batata e cada garrafinha de água de coco do que a gente imagina”, ressaltou.

Inteligência artificial: da manufatura ao marketing

Uma pesquisa da Gartner aponta que, neste ano, mais de 80% das empresas já terão usado IA Generativa, aquela focada na automação e no ganho de produtividade. A indústria de alimentos também está inserida nessa realidade.

O uso de enormes bancos de dados com histórico de estudos acadêmicos e científicos é uma das maneiras que a indústria utiliza para transformar o potencial das novas tecnologias em produtividade. E isso vai muito além da IA generativa, que ficou conhecida por causa do Chat GPT.

Uma das empresas referência no uso de novas tecnologias, como dados e IA, é a PepsiCo. A companhia afirma que a IA está “remodelando” a maneira como é feito o planejamento.

Suelma explicou que a inteligência artificial já estava incorporada nos processos de manufatura, planejamento e logística da PepsiCo há muito tempo. A novidade recente é a inteligência artificial generativa, que oferece uma interface mais amigável.

“Com a inteligência artificial generativa, áreas como RH, marketing e planejamento de campanhas publicitárias passaram por uma revolução quase completa nos últimos dois ou três anos”, comentou, mencionando o uso de ferramentas como o Copilot da Microsoft para aumentar a eficiência operacional.

No site da empresa, está descrito que a IA se tornou uma ferramenta vital para empresas e funcionários. “É uma parte fundamental da transformação digital da PepsiCo, à medida que a empresa constrói seus recursos digitais: começando com o melhor momento para plantar batatas até a previsão de quantas sacolas de Lay’s devem ir para as prateleiras das lojas.”

“A IA mudou a forma como interagimos com quase todas as empresas”, disse Athina Kanioura, Chief Strategy and Transformation Officer da PepsiCo, em comunicado divulgado em seu site. “E agora as empresas têm sistemas que têm inteligência por trás deles, que transformaram a forma como resolvemos problemas, nos envolvemos com os consumidores e fazemos produtos”, complementa a executiva da PepsiCo.

Aplicações práticas: da plantação à prateleira

Em muitas das plantas da Frito-Lay, divisão da PepsiCo que fabrica basicamente salgadinhos, a tecnologia monitora e rastreia dados nas máquinas das plantas para prever quaisquer falhas mecânicas antes que elas aconteçam.

Após um ano, as plantas não tiveram nenhuma quebra ou interrupção inesperada. Com a ajuda da IA, os mecânicos conseguiram ser mais eficientes com seu tempo para que pudessem se concentrar na manutenção planejada e serem proativos antes que o equipamento falhasse.

Em artigo, o futurista, influenciador e referência no debate sobre tecnologia na indústria, Bernard Marr, diz que a PepsiCo se vale de robôs, aprendizado de máquina e IA em toda a organização e de muitas maneiras, para melhorar sua eficiência e criar soluções.

“A fábrica da Frito-Lay (subsidiária da PepsiCo) está se beneficiando do aprendizado de máquina. Um projeto usa lasers para atingir chips e, em seguida, ouvir os sons que saem do chip para determinar a textura. Algoritmos processam o som e determinam a textura do chip para automatizar a verificação de qualidade dos sistemas de processamento de chips da Frito-Lay” – Bernard Marr, influenciador e referência no debate sobre tecnologia na indústria, em artigo.

A PepsiCo também desenvolveu um modelo de aprendizado de máquina que poderia ser usado com um sistema de visão para prever o peso das batatas sendo processadas.

Assim, a companhia estima ter economizado 300 mil dólares por linha de produção, contando que são 35 só nos EUA. Agora, os sistemas usam apenas uma câmera e o modelo de aprendizado de máquina com pontos de captação. Tudo isso, sem custo adicional.

A combinação de tecnologia, ciência e compromisso com a sustentabilidade posiciona a PepsiCo como referência na transformação digital da indústria de alimentos, demonstrando que inovação e responsabilidade social podem caminhar juntas no enfrentamento dos desafios globais da segurança alimentar.