A geopolítica deixou de ser um tema restrito aos gabinetes governamentais e passou a impactar diretamente o chão de fábrica da indústria de alimentos e bebidas. Conflitos internacionais, volatilidade cambial e rupturas em rotas logísticas globais estão forçando empresas do setor a repensarem suas estratégias de abastecimento, produção e distribuição.
Quem alerta para essa nova realidade é Thiago Carvalho Pereira, vice-presidente de supply chain da Natural One. Em entrevista para o Food Connection, o executivo analisa os principais riscos e oportunidades deste cenário para decisores do mercado brasileiro.

Riscos geopolíticos impactam diretamente custos e operações
Segundo Pereira, os principais riscos geopolíticos que afetam a cadeia de suprimentos de alimentos e bebidas estão concentrados em áreas críticas como energia, combustíveis, rotas logísticas internacionais, insumos e volatilidade cambial.
“O tema é extremamente relevante, porque a geopolítica deixou de ser um assunto restrito a governos, diplomacia ou mercados financeiros e passou a impactar de forma muito concreta a operação das indústrias”, afirma o executivo.
Os conflitos em regiões como Oriente Médio e Leste Europeu têm efeitos diretos sobre o custo do frete, alongam prazos de entrega, pressionam seguros e reduzem a previsibilidade da cadeia. Para a indústria alimentícia, altamente dependente de abastecimento contínuo e transporte eficiente, essas disrupções representam desafios significativos ao controle de custos e à manutenção do nível de serviço.
Decisões estratégicas substituem foco exclusivo em preço
As tensões globais se manifestam no dia a dia operacional através de decisões muito concretas relacionadas à compra de insumos, negociação com fornecedores, planejamento de estoques e logística. “A empresa passa a olhar menos apenas para preço e mais para disponibilidade, risco de ruptura e confiabilidade de entrega”, explica o vice-presidente da Natural One.
Cresce também a necessidade de diversificar fornecedores, rever estoques de segurança e replanejar com maior frequência. “A geopolítica trouxe para a operação uma necessidade maior de resiliência e capacidade de adaptação”, complementa Pereira, ressaltando que o supply chain voltou a ser tratado como tema estratégico de negócio.
Áreas como compras, planejamento e logística precisam atuar com visão mais ampla, conectando risco, margem, serviço, capital de giro e continuidade operacional. A eficiência operacional, embora continue importante, agora divide espaço com a resiliência e a capacidade de adaptação como prioridades estratégicas.
Brasil em posição estratégica, apesar das vulnerabilidades
Ao analisar a posição do Brasil neste tabuleiro geopolítico, Thiago identifica uma situação ambígua, porém estratégica. O país sofre com vulnerabilidades relacionadas a fretes internacionais, câmbio, energia, fertilizantes e gargalos logísticos internos. Por outro lado, ganha importância como grande produtor de alimentos, com escala, diversidade e potencial para atender à crescente demanda global por segurança alimentar.
“Na indústria de alimentos e bebidas, isso significa que eficiência continua sendo importante, mas resiliência, diversificação e capacidade de adaptação passaram a ser igualmente decisivas”, pontua o executivo.
O vice-presidente da Natural One enxerga condições para o Brasil se fortalecer como fornecedor estratégico, desde que avance em áreas fundamentais como infraestrutura, eficiência portuária, competitividade industrial, acordos e inserção comercial, resiliência logística e previsibilidade regulatória.
“Se fizer isso, o país pode sair de uma posição de participante relevante para uma posição de parceiro estratégico indispensável em várias cadeias de alimentos e bebidas”, projeta Pereira. A conclusão do executivo é clara sobre o novo papel da geopolítica na gestão industrial.
“Em resumo, a geopolítica deixou de ser um pano de fundo e passou a ser uma variável central da gestão industrial e da supply chain. E, nesse cenário, o Brasil tem desafios importantes, mas também uma oportunidade concreta de ampliar sua relevância global”, finaliza.
Congresso Fispal Tec debate a geopolítica das cadeias alimentares
Em um cenário global onde a gestão da instabilidade política se torna cada vez mais crucial, o Brasil reafirma sua posição estratégica como maior exportador de alimentos industrializados do mundo. É neste contexto que Congresso Fispal Tec, principal atração da Fispal Tecnologia, se prepara para reunir os principais líderes e especialistas do setor, proporcionando um palco de debates e soluções para os desafios contemporâneos da indústria alimentícia. Com o macrotema “A Inteligência que Move a Indústria Alimentar”, o encontro acontece de 16 a 18 de junho, no São Paulo Expo.
No dia 18 de junho, o doutor em internacionalização e estratégia João Alfredo Nyegray apresenta a palestra “Geopolítica das Cadeias Alimentares: Riscos Globais e Oportunidades Estratégicas para a Indústria”. Logo depois, Nyegray participa do painel “Geopolítica: Tendências, Riscos e Oportunidades no Setor de Alimentos e Bebidas”, com Thiago Carvalho Pereira, vice-presidente de supply chain da Natural One. Garanta seu ingresso!