A demanda por proteína sustentável cresce em ritmo acelerado. Para a pecuária brasileira, que responde por parcela expressiva das emissões de gases de efeito estufa do agronegócio nacional, isso representa tanto uma pressão quanto uma oportunidade.

Embora essas exigências ainda estejam em estágio de consolidação no Brasil e apresentem menor uniformidade do que em mercados externos, observa-se uma evolução importante. 

Nesse contexto, a certificação de carne baixo carbono passou a ser um requisito estratégico para quem quer manter as portas abertas no comércio interno e externo de carne bovina. 

Entender como funciona esse processo é o primeiro passo para transformar a sustentabilidade em vantagem competitiva.

Leia mais: Brasil lidera produção e exportação de carne bovina, mas enfrenta desafios de sustentabilidade: Como obter certificação de carne baixo carbono no Brasil

O que é a certificação de carne baixo carbono

A certificação de carne baixo carbono atesta que a carne bovina foi produzida em sistemas com menor emissão de gases de efeito estufa. 

No Brasil, o principal protocolo para o gado de corte é a marca Carne Baixo Carbono® (CBC), de propriedade da Embrapa e registrada no INPI desde 2021. 

Segundo o Protocolo CBC publicado pela Embrapa em 2025, o programa é de adesão voluntária e contempla:

  • Redução ou compensação de emissões por meio de práticas agropecuárias mais eficientes, redução da idade de abate e incremento do estoque de carbono no solo.
  • Rastreabilidade bovina em toda a cadeia produtiva, da propriedade rural ao frigorífico, com monitoramento por auditoria de terceira parte (MRV: Mensuração, Relato e Verificação).
  • Integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) como prática valorizada dentro do protocolo, em alinhamento ao Plano ABC+ do Ministério da Agricultura. Saiba mais sobre o programa ILPF no portal da Embrapa Florestas.
  • Critérios socioambientais, que contemplam a ausência de passivos trabalhistas e ambientais, além da inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR).
  • Bem-estar animal, com adoção de boas práticas no manejo, nas instalações e no treinamento de pessoal.

O protocolo é estruturado em 5 módulos para propriedades rurais: conformidades, solo, pasto, animal e terminação intensiva, totalizando 67 critérios, sendo 20 obrigatórios para ingresso no programa.

Esse movimento acompanha uma transformação maior do setor, já que o Brasil lidera produção e exportação de carne bovina, mas enfrenta desafios de sustentabilidade cada vez mais cobrados pelo mercado e pelos consumidores.

Por que a certificação está ganhando relevância no mercado?

A certificação se tornou uma ferramenta estratégica de acesso a mercados, redução de risco reputacional e fortalecimento comercial da cadeia da carne bovina.

A pressão por transparência ambiental cresce entre varejistas, investidores e consumidores, enquanto governos e compradores internacionais aumentam as exigências sobre rastreabilidade, emissões e origem da produção. 

Portanto, protocolos de certificação passam a funcionar como prova documentada de conformidade e sustentabilidade para frigoríficos, pecuaristas e exportadores. 

Pressão internacional e exigências de exportação

O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, mas o mercado externo não fecha os olhos para o passivo ambiental do setor. 

Regulamentações como o EUDR (Regulamento Europeu sobre Desmatamento) e as metas ESG de grandes redes varejistas globais colocam a rastreabilidade bovina e a redução de emissões de GEE como condições de acesso, não apenas como diferenciais.

O lançamento do protocolo CBC durante a COP 30 sinaliza a intenção do Brasil de utilizar a certificação como instrumento estratégico nas agendas diplomática e comercial. 

Para frigoríficos e produtores, a adesão antecipada representa uma oportunidade de alinhar a operação a critérios que tendem a ganhar relevância nos mercados nacionais e internacionais, posicionando o negócio à frente de possíveis exigências futuras.

Consumidor e premiunização da carne sustentável

O mercado de carne premium cresce em diferentes regiões do mundo.

Consumidores dispostos a pagar mais por produtos com comprovação ambiental e social representam um segmento crescente, especialmente em países europeus, norte-americanos e no Japão. 

A carne sustentável com selo reconhecido agrega valor percebido e facilita a precificação diferenciada ao longo da cadeia.

Esse movimento já vem impactando diretamente as estratégias da cadeia produtiva. A indústria de proteína animal tem acelerado investimentos em rastreabilidade, sustentabilidade e adequação às novas exigências do mercado internacional. 

Como obter certificação de carne de baixo carbono?

O processo envolve fases claras, que vão do diagnóstico inicial à auditoria externa. A seguir, veja as principais etapas do processo de certificação.

Diagnóstico da operação pecuária

O ponto de partida é o levantamento completo das emissões e das práticas de manejo da propriedade. Essa etapa inclui:

  1. Mapeamento de emissões: levantamento das fontes de gases de efeito estufa na fazenda, como fermentação entérica, manejo de dejetos e uso de insumos como calcário e adubos nitrogenados.
  2. Avaliação do manejo: análise das práticas atuais de pastejo, recuperação de pastagens, adubação e uso do solo, com identificação de lacunas em relação aos critérios do protocolo.
  3. Critérios de rastreabilidade: a propriedade deve comprovar a origem do gado e manter registros atualizados da cadeia produtiva. O produtor deve acessar a plataforma Agritrace Rastreabilidade Animal, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, onde são cadastrados os dados da propriedade e escolhidos o frigorífico parceiro e a certificadora.

Esse processo acompanha uma transformação mais ampla do setor pecuário, que vem ampliando o uso de tecnologia, rastreabilidade e indicadores ambientais para atender às novas exigências do mercado.

Adequação aos critérios técnicos

Com o diagnóstico em mãos, começa a fase de adequação. Os principais eixos são:

  1. Bem-estar animal: adoção de protocolos de boas práticas no manejo, nas instalações e no treinamento dos funcionários, conforme recomendado pelo módulo Animal do protocolo CBC.
  2. Manejo sustentável bovino: recuperação de pastagens degradadas, controle de erosão, amostragem georreferenciada do solo (nas camadas de 0-20 cm e 20-40 cm) para monitorar estoques de carbono. O monitoramento do carbono do solo é feito a cada dois anos.
  3. Monitoramento ambiental: as áreas utilizadas no protocolo devem ser consolidadas, sem desmatamento após 22/07/2008, conforme o Código Florestal Brasileiro. O uso de fogo como prática de manejo é proibido. Em caso de incêndio acidental, é obrigatório o registro legal e um plano de recuperação.

Os ingredientes e práticas de baixo carbono também entram no cálculo da pegada ambiental da produção, e sua adoção contribui para o cumprimento dos critérios técnicos do protocolo.

A participação em outras certificações vinculadas ao Plano ABC+ do Ministério da Agricultura é valorizada e gera pontuação extra dentro do protocolo CBC.

Auditoria e validação

A certificação é concedida por organismos certificadores de terceira parte, credenciados para conduzir o processo de MRV. O fluxo envolve:

  1. Escolha da certificadora: após o cadastro na plataforma Agritrace, o produtor seleciona o organismo certificador de sua preferência. A empresa parceira licenciada para operação comercial do protocolo é a Marfrig Global Foods.
  2. Documentação necessária: o processo exige comprovantes de regularidade ambiental (CAR), ausência de pendências trabalhistas, registros de análise de solo, dados zootécnicos da fazenda e registros financeiros da operação. No frigorífico, há 21 artigos específicos no Memorial Descritivo do protocolo a serem cumpridos.
  3. Revisão periódica: o protocolo prevê revisão dos critérios a cada dois anos, incorporando avanços científicos e novas exigências de mercado, o que demanda atualização contínua por parte dos produtores certificados.

É recomendável que o produtor conte com assessoria de um profissional em ciências agrárias para elaborar o plano de implantação antes da verificação pela certificadora.

4 benefícios da certificação para a indústria da carne

Em um mercado cada vez mais pressionado por critérios ESG e metas de redução de emissões de GEE, frigoríficos e produtores enxergam nos selos de carne baixo carbono uma forma de acessar novos mercados, fortalecer a marca e aumentar o valor percebido do produto. 

A certificação ajuda a posicionar a operação para um cenário em que a sustentabilidade tende a deixar de ser diferencial para ser um requisito comercial. 

1) Acesso a mercados premium e exportação

A certificação de carne baixo carbono abre portas para mercados que exigem comprovação ambiental. 

Países europeus, redes de varejo globais e compradores institucionais passaram a incluir critérios de sustentabilidade em seus contratos de fornecimento. Ter o selo CBC é um argumento concreto nas negociações.

2) Diferenciação competitiva

A certificação permite disputar por valor. Produtores e frigoríficos certificados constroem uma narrativa verificável, não apenas declaratória, sobre a origem e o impacto ambiental da carne.

3) Fortalecimento de marca e ESG na pecuária

Para empresas que reportam metas ESG a investidores, fundos e conselhos de administração, ter operações certificadas representa evidência concreta de progresso. 

Isso melhora a posição em rankings de sustentabilidade e facilita o acesso a linhas de crédito com critérios ambientais.

4) Potencial de valorização comercial da carne 

A premiumização da carne sustentável ainda está em construção no Brasil, mas a tendência internacional aponta para diferenças de preço crescentes entre produtos com e sem comprovação ambiental. 

Entrar agora na certificação significa construir histórico e reputação antes que o mercado exija como pré-requisito.

Carne baixo carbono: um diferencial que já virou estratégia de mercado 

Obter a certificação de carne baixo carbono exige:

  • planejamento; 
  • adequação técnica;
  • investimento em rastreabilidade. 

O processo é gradual e estruturado em critérios claros, o que torna o caminho acessível para produtores comprometidos com a melhoria contínua da operação.

Para a indústria da carne brasileira, o momento de agir é agora. A janela entre a adoção voluntária e a exigência compulsória pelos mercados externos tende a se fechar com rapidez. 

Quem certificar suas operações antes da pressão regulatória vai chegar à mesa de negociação com vantagem real.