Vocês já devem ter ouvido falar sobre o Super-Homem, Mulher-Maravilha, Batman ou outros heróis que salvam o mundo usando força, velocidade ou poderes extraordinários. Mas e se o verdadeiro superpoder para proteger o planeta estivesse nas mãos de pessoas comuns, no dia a dia, em algo tão simples como escolher o que comprar?

Na realidade, existe um herói muito mais poderoso do que parece: o consumidor. Cada escolha feita no supermercado, no açougue ou no restaurante ajuda a decidir quais empresas irão crescer, quais práticas serão incentivadas e qual tipo de produção continuará existindo. Quando uma pessoa escolhe consumir produtos de empresas comprometidas com a preservação das florestas, com o respeito aos direitos humanos e com a produção responsável, ela está usando um superpoder capaz de transformar cadeias produtivas inteiras.

O consumidor sustentável tem o poder de mobilizar empresas por mais transparência, exigir carne livre de desmatamento e incentivar práticas que protejam a Amazônia, o Cerrado, os rios, o clima e as populações que vivem nesses territórios. Afinal, as empresas acompanham aquilo que os consumidores valorizam. Se cresce a demanda por produtos responsáveis, cresce também a necessidade de produzir sem destruir.

Salvar o planeta não depende apenas de governos ou grandes organizações. Muitas mudanças começam nas decisões de pessoas comuns no cotidiano. E talvez o maior superpoder de todos seja justamente o poder de decidir.

As heroínas do varejo: as mulheres dominam as decisões de compra nos lares

Dados da Nielsen (2023) mostram que o comprador principal do varejo moderno é predominantemente feminino (55%) e concentra-se nas faixas etárias de 25 a 49 anos, especialmente entre 35 e 49 anos (38%).

Além disso, 80% dos consumidores assumem o papel de compradores principais, enquanto 20% atuam, adicionalmente, como influenciadores da compra. Entre os influenciadores, as mulheres também são maioria (58%), com distribuição etária semelhante, concentrada entre 25 e 49 anos.

De forma geral, o perfil do consumidor responsável ou influenciador das compras no varejo moderno é composto majoritariamente por mulheres adultas, entre 25 e 49 anos. Em outras palavras, quando o assunto é abastecer os lares brasileiros, muitas das decisões que moldam o mercado passam pelas mãos das mulheres.

Qual o critério mais importante para o consumidor do varejo?

Ainda de acordo com dados da Nielsen (2023;2025), os consumidores geralmente escolhem uma loja ou supermercado especialmente pelo açougue ou frutas e verduras. Ou seja, os consumidores podem comprar diversos produtos, mas o que os motiva a escolher o local geralmente é a preferência por carne, frutas e verduras do estabelecimento.

Já entre os critérios que mais influenciam a escolha do estabelecimento pelo consumidor, destacam-se preços baixos, promoções atrativas, produtos frescos, loja bem abastecida, facilidade para encontrar produtos e bom custo-benefício. Esses atributos aparecem entre os mais valorizados pelos consumidores, evidenciando que, entre os fatores analisados, o preço continua sendo o principal elemento na decisão de compra.

Produzir com sustentabilidade encarece o produto?

Entendemos que o preço é o aspecto mais importante na escolha de um produto para o consumidor do varejo no Brasil. Mas seria realmente mais caro pagar por um produto livre de desmatamento ou sustentável?

Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa da Capgemini, e divulgada pelo World Economic Forum (2024), constatou que, em 2023, os investimentos corporativos em sustentabilidade representaram menos de 1% da receita anual das empresas, valor muito inferior aos gastos médios com marketing (9,1% da receita), por exemplo. Apesar disso, os executivos relataram uma crescente percepção de retorno financeiro desses investimentos.

Isso pode ser notado pelos achados do estudo intitulado Projeto ROI: Determinando as Vantagens Competitivas e Financeiras da Responsabilidade Corporativa e da Sustentabilidade até 2025″, querealizou uma revisão de 640 estudos acadêmicos e empresariais e concluiu que práticas de sustentabilidade estão associadas a:

  • Aumento de até 21% na lucratividade;
  • Aumento de até 21% na produtividade;
  • Crescimento de até 20% nas vendas;
  • Redução de até 57% na rotatividade de funcionários.

Além disso, empresas analisadas reportaram retornos financeiros entre 20% e 33% em iniciativas de sustentabilidade bem implementadas.

Ou seja, os números mostram que investir em sustentabilidade gera economia e aumento de rentabilidade para as empresas. Então, companhias que produzem de forma sustentável teriam potencial para que isso se refletisse em produtos mais baratos e não mais caros ao consumidor.

O relatório Project ROI ainda cita casos em que medidas de eficiência ambiental geraram economias substanciais para as empresas. Um exemplo foi o de companhias que buscaram reduzir suas emissões de carbono e identificaram mais de US$44 milhões em redução de custos operacionais, além de indicarem que evitariam custos futuros associados a riscos ambientais. Isso demonstra que, pensar em estratégias para a conservação e para a proteção do meio ambiente amadurece a gestão financeira de recursos e operações nas empresas, retornando em resultados observados na redução de custos em geral dos estabelecimentos.

Carne bovina: afinal, dá pra vender mais barato e ser sustentável?

Segundo a Nielsen IQ (NIQ), a categoria “carne fresca” aparece como a principal categoria gatilho na escolha da loja pelo consumidor, influenciando 42% das decisões de compra. Esses dados sugerem que o açougue e os produtos cárneos são importantes impulsionadores da frequência, fidelização e crescimento do atacarejo.

O atacarejo é um modelo de supermercado que mistura características de atacado + varejo. Ou seja, ele vende produtos úteis tanto para comerciantes e pequenos negócios quanto para consumidores comuns, geralmente com preços mais baixos, embalagens maiores e estrutura mais simples. Exemplos conhecidos no Brasil são redes como Assaí Atacadista, Atacadão e Mix Mateus. Esse formato cresceu muito porque oferece preços mais competitivos.

Mas e se a escolha pelos produtos cárneos fosse baseada em sustentabilidade? Em produtos livres de desmatamento? Exigir sustentabilidade seria mais caro?

Fazendo uma breve comparação de dados de preços de um mesmo produto em plataformas de e-commerce e os resultados obtidos na avaliação Radar Verde sobre os varejistas que oferecem esses produtos, foi possível observar que quem obteve os melhores resultados na avaliação oferece o mesmo produto a preços mais baratos.

Ou seja, empresas que possuem alguma política socioambiental contra o desmatamento conseguem ainda ter preços mais competitivos.

Fonte: Radar Verde (Resultados dos Varejistas), 2025.

É importante considerar que o preço da carne depende de diversos fatores, como logística, transporte, armazenamento e estratégias comerciais. No entanto, embora um conjunto de fatores componham o valor cobrado pelo produto, os dados sugerem que é possível incorporar critérios de sustentabilidade e políticas contra o desmatamento nas empresas sem necessariamente encarecer o produto, conciliando preços competitivos com maior responsabilidade socioambiental.

O superpoder está na escolha

Os dados apresentados mostram que o consumidor não precisa escolher entre preço e sustentabilidade. As evidências indicam que produzir de forma responsável, com políticas de combate ao desmatamento e maior controle das cadeias produtivas, não necessariamente torna os produtos mais caros. Pelo contrário, investimentos em sustentabilidade podem aumentar a eficiência, reduzir custos operacionais e gerar ganhos de competitividade para as empresas.

Além disso, a comparação entre varejistas avaliados pelo Radar Verde sugere que é possível encontrar produtos oferecidos por empresas com melhores práticas socioambientais a preços iguais ou até mais baixos do que aqueles praticados por empresas menos comprometidas.

Isso significa que o consumidor tem um papel fundamental na transformação do mercado. Ao exigir carne livre de desmatamento, mais transparência e responsabilidade socioambiental, ele envia um sinal claro para empresas e varejistas sobre quais práticas deseja apoiar. Cada compra funciona como um  investimento individual do consumidor que fortalece determinados modelos de produção e enfraquece outros. Se milhões de consumidores passarem a valorizar produtos que respeitam as florestas, as empresas terão cada vez mais incentivos para adotar essas práticas.

No fim das contas, o maior superpoder para salvar o planeta talvez não seja conseguir voar, ter força extraordinária ou uma visão de raio-X. Mas sim, o poder de escolher.. E toda vez que um consumidor opta por um produto livre de desmatamento, ele usa esse superpoder para ajudar a proteger as florestas e o clima.

* Camila Trigueiro é pesquisadora do Radar Verde e do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).