*Por Márcio Favaro

A indústria brasileira de gelados comestíveis vive um momento de profunda evolução estratégica. Se no passado a sazonalidade era o principal desafio do inverno, hoje o mercado amadureceu e transformou a estação em uma alavanca de negócios. A nossa tese de crescimento deixou de contar com dias ensolarados fora de época e passou a ser impulsionada pela diversificação de portfólio, avanço do mercado premium e o estreitamento de laços com a alta gastronomia

O sorvete brasileiro deixou de ser visto apenas como um impulso de consumo na praia para se consolidar como o grande protagonista da alta confeitaria e das sobremesas de inverno. É uma mudança profunda: saímos do foco exclusivo no volume puro e entramos de vez na era do valor agregado.

Os dados do nosso levantamento inédito na ABRASORVETE comprovam essa transformação: 54,5% dos fabricantes do país já projetam um incremento de até 10% nas vendas da estação ao apostar na combinação de sorvetes com sobremesas quentes ou complexas, como Petit Gâteau, Brownies, Croissants e Fondues. No inverno, o ganho de margem não vem do palito vendido na rua, mas sim de contratos estratégicos de fornecimento para o ecossistema gastronômico.

O motor do food service e a estabilidade de caixa

O canal B2B (Business to Business) ganhou uma relevância vital para a nossa indústria. Para 23% das indústrias pesquisadas, o atendimento focado no canal Food Service (restaurantes, cafeterias, padarias e redes de sobremesa) já possui alta relevância, sendo o principal pilar para manter o faturamento estável ao longo de todo o ano.

Quando olhamos para a ponta do consumo, os industriais mapearam os canais que apresentam o maior potencial de crescimento para os gelados comestíveis nos meses frios:

  • 18% apontam as redes especializadas em sobremesas (docerias e confeitarias).
  • 13% apostam no potencial das cafeterias.
  • 13% enxergam a força dos restaurantes tradicionais.

Engenharia de alimentos: P&D focado no paladar adulto

Para atender às exigências de chefs e donos de estabelecimentos, as fábricas de sorvete estão investindo pesado em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Não se trata apenas de mudar o sabor, mas de aplicar engenharia de alimentos para resolver dores operacionais da cozinha:

  • Bases neutras de alta performance (45%): Sorvetes de Baunilha e Creme desenvolvidos com formulações específicas para resistir ao derretimento térmico rápido — uma exigência técnica essencial para acompanhar sobremesas que saem do forno diretamente para a mesa do cliente.
  • Caldas e Adstringência (41%): Gelados formulados para contrastar com frutas quentes e fondues, apostando em notas intensas de chocolates com alta porcentagem de cacau e caramelo salgado.

Como reflexo direto desse alinhamento com a gastronomia, os “queridinhos” do portfólio nacional já estão consolidados: 68% das marcas possuem linhas homologadas especificamente para a combinação de Brownie com sorvete, e 59% das indústrias atendem o mercado com soluções focadas no clássico Petit Gâteau.

Uma indústria resiliente e versátil

O que esses indicadores nos mostram é que o empresário de gelados comestíveis entendeu que o inverno não é um período para congelar investimentos. Pelo contrário, é o momento de acelerar a inovação e estreitar os laços com a cadeia de alimentação fora do lar.

Ao unirmos a tecnologia industrial à criatividade gastronômica, entregamos ao mercado a união perfeita entre o contraste de temperaturas e o conforto que o consumidor busca no inverno. Ganha a indústria, ganha o food service e, principalmente, ganha o cliente final.

Este artigo e as possíveis opiniões pessoais contidas nele não expressam necessariamente os posicionamentos do Food Connection