Por Márcio Favaro, presidente da ABRASORVETE
À primeira vista, o debate sobre a Reforma Tributária pode soar como uma discussão distante, restrita aos escritórios de contabilidade e às bancadas do Congresso Nacional. No entanto, para a indústria de alimentos e bebidas — e, em especial, para o ecossistema de gelados comestíveis —, a virada do sistema tributário brasileiro representa a maior transformação operacional e comercial dos últimos trinta anos.
Não se trata apenas de trocar siglas como PIS, COFINS, ICMS e ISS pelo modelo de IVA Dual (CBS no âmbito federal e IBS no estadual e municipal). Trata-se de uma verdadeira revolução cultural na precificação, na gestão de fornecedores e nas relações B2B que conectam a fábrica de sorvetes aos restaurantes, lanchonetes, padarias e supermercados de todo o país.
No centro desse debate está o conceito do imposto “calculado por fora”. Até hoje, o empresário brasileiro precificou seus produtos embutindo a carga tributária dentro da margem bruta. A partir da implementação da reforma, o preço do produto passa a ser apurado pelo “valor limpo”, enquanto a alíquota tributária é destacada à parte. Essa mudança parece sutil no papel, mas exige uma completa reeducação na forma como a indústria apresenta seu valor ao mercado e negocia com o canal Food Service.
Outro ponto importante debatido recentemente pela ABRASORVETE em fóruns com associados é o dilema vivido por micro e pequenas empresas enquadradas no Simples Nacional, que representam a esmagadora maioria do nosso setor. Com a chegada da CBS e do IBS e a introdução do mecanismo de Split Payment (onde o direito ao crédito tributário pelo comprador fica estritamente condicionado ao recolhimento efetivo do imposto pelo vendedor), abre-se uma encruzilhada estratégica: permanecer na guia única do Simples ou migrar para o Regime Híbrido?
Se por um lado manter-se no Simples preserva a simplicidade burocrática, por outro pode distanciar a pequena indústria de grandes compradores do Lucro Real, que passarão a priorizar parceiros comerciais capazes de repassar o crédito tributário de forma integral. A competitividade do futuro não será medida apenas pela qualidade do sorvete ou pela inovação nos sabores, mas também pela eficiência e transparência da sua engenharia fiscal.
A boa notícia é que o novo sistema traz avanços há muito aguardados pela indústria. O direito ao crédito amplo e imediato sobre ativos e investimentos operacionais — como a aquisição de maquinários de alta tecnologia, frota refrigerada e até freezers cedidos em comodato ao ponto de venda — representa uma vitória para a modernização do setor. Da mesma forma, a regra de aproveitamento de crédito sobre os estoques na transição traz um alívio fundamental para a preservação do fluxo de caixa.
Na ABRASORVETE, temos atuado firmemente na capacitação técnica contínua dos nossos associados para que nenhum fabricante fique para trás nessa transição. Defendemos regulamentações sensíveis às particularidades do nosso mercado, como o pleito por critérios viáveis de crédito para insumos essenciais (como leite, açúcar e preparados de frutas em embalagens industriais) e a revisão da pesada tributação sobre a folha de pagamento.
No último ano, a Abrasorvete viabilizou inclusive a participação de duas empresas associadas — Sorverbom e Perfetto — em um projeto-piloto junto aos órgãos responsáveis pela Reforma Tributária. O engajamento dessas empresas, que envolve reuniões mensais entre as equipes de TI e financeiro para o desenvolvimento de sistemas adaptados à nova tributação, serve como um importante case de sucesso. A experiência delas demonstra que a transição exige muito mais do que ajustes contábeis: requer uma profunda atualização tecnológica e estratégica para garantir que a operação continue fluindo sem interrupções.
A Reforma Tributária não deve ser encarada com pessimismo, mas com preparo e pragmatismo. O setor de sorvetes — que transforma o alimento em momentos de celebração — já provou sua capacidade de inovação e resiliência ao longo de anos. Quem entender a nova lógica fiscal com antecedência, ajustando seus ERPs, requalificando sua cadeia de suprimentos e renegociando margens com transparência, não apenas sobreviverá à transição, mas liderará a nova era do mercado de alimentação no Brasil.
Este artigo e as possíveis opiniões pessoais contidas nele não expressam necessariamente os posicionamentos do Food Connection.