Por Valéria Michel*

A cadeia de reciclagem tem uma vertente muito importante, eu diria a maior de todas, que são os catadores e catadoras de material reciclável. E, muitos deles, entenderam há tempos que trabalhar em conjunto rende mais, gera melhores condições de trabalho, maiores volumes e diversos outros ganhos para a categoria. Isso se chama cooperativismo que, entre outros, significa a união de pessoas para atender a necessidades econômicas e sociais em comum.

Não é arriscado dizer que o significado de cooperativa é semelhante ao de parceria. E é neste ponto que mais atores relevantes para a formação e/ou fortalecimento de uma cadeia de reciclagem podem se encontrar. Estou falando de sociedade e dos setores público e privado que, juntos e sob o mesmo propósito, ampliam suas forças e resultados.

O Brasil gera cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano e apenas 4% a 5% são efetivamente reciclados, segundo o relatório Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Esse cenário parece estagnado há anos, mesmo com a conhecida Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) sendo um instrumento legal, vigente e adequado para que ações saiam do papel e especialmente construído pensando em responsabilidade compartilhada.

Além de ser um problema ambiental, a quase inexistência de reciclagem no Brasil ainda joga fora R$14 bilhões por ano, segundo estudo da própria Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Só há desperdícios.

A parceria entre sociedade e setores público e privado é uma saída para que mais soluções sejam concretizadas porque envolve todos os lados necessários para que uma cadeia de reciclagem efetiva e perene seja erguida. Estas parcerias expandem o conceito de responsabilidade compartilhada.  Estou falando da construção colaborativa de políticas públicas, como contratação de coleta seletiva porta a porta, até o engajamento e a aplicação de educação ambiental à população.

O Recicla Cidade é um exemplo prático e eficiente. Esse projeto nasceu da parceria da Tetra Pak com a ONG Espaço Urbano em 2018, com o intuito de estimular municípios a investirem em coleta seletiva e reciclagem. De lá até hoje, são 40 cidades que receberam o Recicla Cidade com apoio de suas prefeituras. Neste ano, este projeto chegou a São Paulo, pela primeira vez numa capital e com potencial para atingir direta ou indiretamente mais de 700 mil pessoas que residem nas regiões de Pinheiros (Zona Oeste) e de São Mateus (Zona Leste).

O projeto proporciona maior conexão entre as cooperativas de reciclagem e a sociedade, além de ações de educação ambiental para a população envolvida. No mundo ideal, o resíduo que sai da casa das pessoas é separado de maneira adequada e higienizado, depois coletado corretamente e periodicamente por meio de um sistema público eficiente e perene, e levado a cooperativas de reciclagem com infraestrutura adequada de triagem e gestão para que o material seja comercializado pelo melhor preço possível, gerando renda e impacto positivo para todos.

Vamos aos resultados do Recicla Cidade acumulados até 2025 para trazer ao campo concreto o que estou falando: mais de 26 mil toneladas de resíduos recicláveis destinados corretamente, alcançando também uma população de cerca de 700 mil pessoas em 39 cidades. Foram 1,3 mil toneladas de CO2 evitadas – o que equivale a retirar cerca de 250 carros por ano de circulação.  

Agora, sendo implementado em uma cidade com escala territorial e populacional de um país, o Recicla Cidade São Paulo, em sua primeira fase, busca construir um modelo eficiente de engajamento da sociedade, adaptado à realidade de uma cidade de grande porte que, embora possua infraestrutura de coleta seletiva, não alcança resultados expressivos em reciclagem. O projeto visa demonstrar através de dados confiáveis que é possível mudar esta realidade e expandir esta iniciativa para toda a capital futuramente e para outras grandes cidades depois.

Para isso, a iniciativa privada apoia –além de Tetra Pak, o CAF – banco de desenvolvimento da América Latina e Caribe participa–, o setor público garante a sua parte –no caso, a SP Regula atua em parceria–, enquanto a sociedade cuida da educação ambiental junto às pessoas –tarefa da ONG Espaço Urbano.

Não vou dizer que é uma tarefa fácil ou trivial, muito menos que não dá trabalho. É preciso compromisso institucional de longo prazo para tirar essas ações do papel. Mas, com a experiência de alguém que há mais de 25 anos atua na cadeia de reciclagem no Brasil, afirmo que os resultados superam em muito os esforços. E, reforçando: são ganhos ambientais, sociais e econômicos para todos desse elo tão interligado.

*Valéria Michel é diretora de Sustentabilidade para Brasil e Cone Sul da Tetra Pak.