Por Brenda Rühle*
Sustentabilidade e negócios caminham juntos, sobretudo quando falamos de sistemas alimentares, que incluem desde a produção no campo até o consumidor final. Mas, então por que ainda há tantas perdas e desperdícios ao longo desse caminho, que resultam em menor produtividade e ganhos para todos? Esse cenário é especialmente relevante no que podemos chamar de “meio essencial” da cadeia de alimentos, o conjunto de atividades que conecta a produção ao consumo e que permite transformar alimentos efetivamente disponíveis para a população. É nessa etapa que se define quanto da produção chegará ao consumidor com qualidade, segurança e valor nutricional preservados.
As respostas passam por diversas esferas, algumas que ainda precisam de mais atenção como o próprio conhecimento da cadeia. Mas, a boa notícia é que existem tecnologias capazes de minimizar esses prejuízos e recente legislação que busca endereçar esses danos.
Perdas e desperdício de alimentos e bebidas são fenômenos distintos, porém conectados. A perda ocorre principalmente antes do varejo, durante produção, pós-colheita, armazenamento, transporte e processamento, o “meio essencial”. O desperdício, por sua vez, concentra-se no varejo, nos serviços de alimentação e nos domicílios.
O assunto ganha ainda mais relevância diante de importantes dados. Em escala global, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) estima que 13,3% dos alimentos foram perdidos entre a pós-colheita e o varejo em 2023.
Não menos importante, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA, na sigla em inglês) calculou que, em 2022, 1,05 bilhão de toneladas de resíduos alimentares foram geradas no varejo, nos serviços de alimentação e nos domicílios, equivalentes a 132 kg por pessoa. São números que mostram claramente que algo precisa ser feito ou reforçado para evitá-los.
No Brasil, há pouco mais de um ano, foi instituída a Política Nacional de Combate à Perda e ao Desperdício de Alimentos (PNCPDA), por meio da Lei nº 15.224, que estabeleceu objetivos, instrumentos e uma ordem de prioridade para destinação, com consumo humano no topo, entre outros. Para tanto, é preciso articular agentes públicos e privados, fortalecer dados e apoiar ações do campo à mesa.
A PNCPDA pode integrar agendas que frequentemente caminham separadas: segurança alimentar, produtividade, competitividade industrial, economia circular, clima, política de resíduos, inovação e desenvolvimento regional. Essa convergência permite priorizar intervenções com benefícios simultâneos, desde que as métricas distingam prevenção, redistribuição e valorização de resíduos.
Para tanto, é preciso primeiro medir o que está acontecendo no sistema alimentar brasileiro. E mais importante do que medir por medir é gerar informações capazes de orientar decisões, identificar prioridades e direcionar investimentos para onde podem produzir maior impacto. Isso significa calcular toneladas e percentual do fluxo de alimento por produto, etapa e destino, bem como o custo da matéria-prima, processamento, energia, água, mão de obra, logística e descarte incorporados ao alimento perdido.
No campo da governança, é necessária a coordenação federativa, conectando União, estados e municípios, especialmente em vigilância sanitária, resíduos, compras públicas, bancos de alimentos e assistência social. Além disso, garantir a implementação das políticas, apoiando pequenas empresas, cooperativas e produtores no acesso a tecnologia, crédito, assistência técnica e mercados.
A indústria e o “meio essencial”
Como já dito, entre a produção primária e o consumo existe um conjunto de atividades que determina quanto do alimento produzido chegará ao mercado com segurança, qualidade e valor. Trata-se da recepção, classificação, armazenamento, transformação, conservação, embalagem, logística, distribuição e interface com o varejo. Esse “meio essencial” da cadeia de alimentos deve ser tratado como infraestrutura de segurança alimentar e produtividade.
A indústria de alimentos e bebidas ocupa uma posição estratégica porque conecta produção e consumo. Ao aumentar a eficiência dos processos e adotar tecnologias capazes de preservar alimentos por mais tempo, contribui para que uma parcela maior da produção chegue ao mercado em condições adequadas de qualidade e segurança.
O setor também pode impulsionar soluções que ampliem o aproveitamento dos recursos já existentes, valorizem coprodutos e promovam maior integração entre os diferentes participantes da cadeia. O resultado é um sistema alimentar mais eficiente, resiliente e capaz de reduzir perdas antes que elas ocorram.
Ferramentas de excelência operacional podem incorporar a redução de perdas à gestão cotidiana das empresas. Mais do que acompanhar indicadores específicos, o desafio é transformar a eficiência no uso dos recursos em parte da cultura empresarial. Nesse contexto, a revisão de processos, critérios internos e mecanismos de incentivo pode ser tão relevante quanto novos investimentos.
Reduzir perdas e desperdício não significa escolher uma solução em detrimento de outra. Significa estabelecer prioridades claras e agir de forma preventiva sempre que possível. Quando houver excedentes, eles devem ser direcionados para os usos de maior valor social e econômico, reservando a destinação final apenas para situações em que não existam alternativas mais adequadas.
A oportunidade de médio prazo é construir uma coalizão de implementação: aplicar medidas comprovadas, testar soluções no contexto brasileiro e gerar uma base de evidências capaz de orientar tanto as políticas existentes quanto as futuras. Com governança, transparência e foco em resultados, a PNCPDA pode fortalecer simultaneamente segurança alimentar, competitividade, inovação e sustentabilidade.

* Brenda Rühle é head de Assuntos Corporativos e Governamentais Brasil e Cone Sul da Tetra Pak.