Quem trabalha com desenvolvimento de suplementos sentiu no orçamento ao longo de 2026. Dados da StoneX citados pela Reuters apontam que o WPC 80 acumulou alta de cerca de 90% em um ano, chegando perto de 20 mil euros por tonelada no início do ano. Nos Estados Unidos, o mesmo ingrediente passou de US$13 por libra em setembro, quase o triplo de um ano antes, segundo a consultoria Vesper. Aqui no Brasil, a Abenutri fala em altas de até 120% no preço da tonelada.
As causas já são conhecidas. Há a onda dos produtos high protein, o consumo associado às canetas de GLP-1, que levou muita gente a buscar proteína para preservar massa magra, e uma capacidade industrial de transformar soro em proteína concentrada que não acompanhou a demanda. A própria Abenutri projeta oferta apertada até o fim de 2026, com nova capacidade apenas a partir de 2027.
Na minha visão, o lado bom desse cenário é que ele nos obriga a fazer uma pergunta que deveria ter sido feita antes: estamos atrás do whey ou daquilo que o whey entrega?
O whey virou referência por bons motivos. É uma proteína de digestão rápida, com cerca de 43% de aminoácidos essenciais, segundo a análise comparativa de Gorissen e colaboradores (2018), e rica em leucina, o aminoácido que funciona como gatilho da via mTOR e, portanto, da síntese proteica muscular. Nos métodos oficiais de qualidade proteica, como o PDCAAS e o DIAAS, ele aparece no topo, com valores iguais ou superiores a 1,0.
É por isso que, quando desenvolvemos uma proteína alternativa, buscamos um aminograma parecido com o do whey. Não se trata de imitar um ingrediente, mas de garantir que todos os aminoácidos essenciais estejam presentes em quantidade e digestibilidade suficientes. O DIAAS ajuda muito nessa leitura, porque considera a digestibilidade ileal de cada aminoácido e aponta qual deles é o limitante, ou seja, aquele que “fecha a conta” primeiro e define o aproveitamento de toda a proteína.
É importante pontuar que o aminograma é uma régua, não uma exclusividade. O que o músculo “enxerga” é a oferta de aminoácidos essenciais, em especial algo entre 2 e 3 g de leucina por refeição, somada à proteína total do dia e à sua distribuição entre as refeições. A origem do ingrediente vem depois.
A literatura mostra isso de forma consistente. Em um estudo da Universidade de Tampa, 48 g de proteína isolada de arroz após o treino produziram ganhos de massa magra, força e potência comparáveis aos do whey isolado em oito semanas (Joy et al., 2013). Um trabalho posterior repetiu o resultado com doses de 24 g. Com ervilha, um ensaio com 161 homens jovens em treino resistido encontrou ganho de espessura muscular semelhante ao do whey (Babault et al., 2015).
Na minha experiência, esse é o ponto que mais confunde o mercado: proteína vegetal bem escolhida não é “proteína de segunda”. Ela pode exigir uma dose um pouco maior ou uma boa combinação, mas entrega o benefício que buscamos.
A soja é a alternativa vegetal mais madura. O isolado de soja tem PDCAAS próximo de 1,0 e DIAAS na faixa de 0,9, com metionina e cisteína como limitantes, o que o coloca entre as proteínas de alta qualidade na revisão de Herreman et al. (2020), ao lado do whey. Soma-se a isso décadas de uso industrial, boa funcionalidade tecnológica e custo competitivo.
A ervilha segue um caminho parecido: é rica em lisina e em aminoácidos de cadeia ramificada, mas também tem os sulfurados como limitantes, com DIAAS entre 0,6 e 0,8 conforme o estudo. O arroz faz o movimento oposto. Tem pouca lisina, seu aminoácido limitante, mas é bem servido de metionina e cisteína. Sozinho, seu DIAAS fica baixo, perto de 0,4 nos concentrados, mas ele é hipoalergênico e um parceiro perfeito para as leguminosas.
E há uma fronteira que considero das mais interessantes: a proteína de levedura, obtida de Saccharomyces cerevisiae, a mesma levedura do pão e da cerveja. Ela tem perfil completo de aminoácidos essenciais e é produzida por fermentação, com menor dependência de safra e de pecuária. Um ensaio clínico australiano com 79 homens, que consumiram 40 g por dia durante oito semanas associados a treino de força, encontrou ganhos de massa magra e força comparáveis aos do whey. O estudo foi feito com o ingrediente de um fabricante e ainda precisa de confirmação independente, mas o sinal é promissor. Tecnicamente, exige atenção ao teor de ácidos nucleicos da biomassa, que eleva o ácido úrico e precisa ser controlado no processo.

É aqui que os blends deixam de ser apenas estratégia de custo e se tornam estratégia nutricional. Ervilha e arroz se complementam quase como um encaixe: um traz a lisina que falta ao outro, e o outro traz os sulfurados. A revisão de Herreman mostra que soja, ervilha e batata elevam o DIAAS de várias proteínas vegetais quando combinadas em proporções específicas. Gorissen chega à mesma conclusão: combinações de vegetais, ou de vegetais com animais, reproduzem de perto as características de uma proteína animal.
Os blends também funcionam com o próprio whey. O grupo de Blake Rasmussen, na Universidade do Texas, testou uma mistura de 25% de soja, 25% de whey e 50% de caseinato, com leucina equiparada. A síntese proteica muscular se manteve elevada por mais tempo do que com whey isolado (Reidy et al., 2013). Em homens idosos, o mesmo blend teve resposta equivalente à do whey (Borack et al., 2016). Ou seja, reduzir a participação do whey numa fórmula não significa necessariamente perder desempenho. Bem desenhado, pode até significar ganhar.
Diante disso, acredito que a pergunta certa para o P&D não é “qual proteína substitui o whey?”, mas “qual combinação entrega o aminograma, a digestibilidade e a leucina de que meu consumidor precisa, ao custo que meu produto suporta?”.
Claro que nada disso é simples. Proteínas vegetais trazem desafios sensoriais, como o amargor e as notas de leguminosa da ervilha ou a arenosidade do arroz, além de questões de solubilidade e viscosidade. Tudo isso exige trabalho de formulação, aromatização e, muitas vezes, hidrólise ou micronização. E a escolha da proteína precisa vir acompanhada de comprovação: aminograma validado por laudo, cálculo de PDCAAS para sustentar alegações e enquadramento regulatório correto.
Esse último ponto merece atenção. Em outubro, a Anvisa determinou o recolhimento de um suplemento à base de proteína de fava hidrolisada por falta de avaliação de segurança do ingrediente. Proteínas de novas fontes ou obtidas por novos processos, incluindo algumas de fermentação, podem cair no escopo de novos alimentos e ingredientes (RDC 839/2023) e precisam dessa avaliação antes de chegar à prateleira. Inovar com proteína alternativa exige, portanto, olhar regulatório desde a bancada.
No fim, acredito que a crise do whey pode deixar um legado positivo: uma indústria que entende proteína pela qualidade do aminograma, e não pelo nome do ingrediente. O whey continua excelente e vai seguir nas nossas fórmulas. Mas ele não é o único caminho para entregar síntese proteica, recuperação e preservação de massa magra. Quem dominar a arte dos blends sai desta fase com produtos mais resilientes, mais inclusivos e menos reféns de uma única cadeia de suprimentos.