A proteína está em todo lugar. No iogurte, na granola, no snack, na bebida esportiva e, sim, até na água. Basta caminhar pelos corredores de supermercados, farmácias ou lojas especializadas para perceber que o mercado de alimentos funcionais parece ter encontrado seu novo protagonista. E a pergunta que considero importante fazer é: já vimos esse filme antes?
Nos últimos anos, a proteína deixou de ser um tema restrito ao universo esportivo para se tornar uma preocupação do consumidor comum. O interesse por saúde, longevidade, composição corporal e bem-estar impulsionou uma verdadeira corrida por produtos enriquecidos com proteína. Segundo a consultoria Mordor Intelligence, o mercado global de proteínas deve crescer a uma taxa anual superior a 7% até o final da década, muito impulsionado pela demanda por alimentos funcionais, suplementos e alternativas proteicas de origem vegetal.
E, claro, a indústria respondeu rapidamente. O whey protein se popularizou, as proteínas vegetais ganharam espaço e praticamente todas as categorias passaram a buscar versões “high protein”. Em paralelo, as redes sociais ajudaram a consolidar a ideia de que consumir mais proteína é, quase sempre, uma escolha melhor. O resultado foi a criação de uma cultura alimentar em que o teor proteico muitas vezes se tornou o principal critério de decisão de compra.
Mas é justamente nesse momento que vale olhar para trás.
Nas décadas de 1980 e 1990, foi a gordura que esteve no centro das atenções: só que no papel inverso. Durante anos, ela foi apontada como a grande vilã da alimentação. O mercado reagiu produzindo uma infinidade de alimentos “low fat”, enquanto consumidores passaram a evitar qualquer produto que contivesse gordura em sua composição.
Hoje, sabemos que aquela visão era simplista. Em muitos casos, a retirada da gordura foi compensada pelo aumento de açúcar, amidos refinados e aditivos para preservar sabor e textura. O resultado não foi necessariamente uma alimentação mais saudável. Pelo contrário, aprendemos que nenhum nutriente deve ser analisado isoladamente e que transformar um único componente em herói ou vilão costuma gerar distorções importantes.
A proteína, evidentemente, não é uma vilã. Ela desempenha funções fundamentais para o organismo, participa da manutenção e construção muscular, contribui para a saciedade, auxilia processos metabólicos e tem papel importante na imunidade. O problema começa quando os gramas de proteína passam a ser o único argumento de compra – e outros critérios igualmente relevantes, como origem dos ingredientes, presença de fibras e ausência de aditivos desnecessários, ficam invisíveis na prateleira.
Essa discussão ganha contornos ainda mais relevantes quando observamos o crescimento do uso dos medicamentos da classe dos GLP-1, como semaglutida e tirzepatida. Esses tratamentos têm ajudado milhões de pessoas no controle do peso corporal, mas também trouxeram um novo desafio nutricional.
Como esses medicamentos reduzem significativamente o apetite, muitos pacientes passam a consumir menos alimentos ao longo do dia. Com isso, a qualidade nutricional de cada refeição torna-se ainda mais importante. A proteína realmente ganha protagonismo, especialmente para ajudar a preservar a massa muscular durante o emagrecimento. No entanto, ela não pode ocupar todo o espaço disponível no prato.
É por isso que acredito que o conceito de densidade nutricional deveria ocupar um espaço muito maior nas discussões sobre alimentação saudável. Densidade nutricional não é um conceito complexo: trata-se de avaliar o quanto de valor real, vitaminas, minerais, fibras, gorduras de qualidade, um alimento entrega em relação às suas calorias e ao espaço que ocupa numa refeição. Para quem come menos, essa equação se torna ainda mais urgente.
Leia mais: Tendências em ingredientes: GLP-1, proteínas e saúde cognitiva [Ebook]: Proteína a qualquer custo: quando o nutriente do momento vira o novo dogma alimentarEsse conceito deveria orientar as escolhas dos consumidores e, principalmente, o desenvolvimento de produtos pela indústria e as recomendações feitas por profissionais de saúde. Afinal, o objetivo não deveria ser simplesmente aumentar um nutriente específico, mas construir soluções nutricionais mais completas.
O desafio do mercado, e também da comunicação em saúde, é resistir à tentação de simplificar o que é, por natureza, complexo. Já substituímos a gordura pelo açúcar quando quisermos vender “saudável”. Seria um erro agora substituir o açúcar pela proteína e chamar isso de evolução. A indústria que souber comunicar completeza, e não apenas um número por porção, estará mais alinhada com o que o consumidor vai exigir nos próximos anos.