A 42ª edição da Fispal Food Service ocupou área recorde de 50 mil m² no Distrito Anhembi, em São Paulo, reunindo 2.500 marcas e mais de 68 mil visitantes. O Pavilhão de Tecnologia foi o que mais cresceu nesta edição: 34% a mais em área de exposição em relação ao ano anterior. Estive por lá, percorrendo estande por estande com olho de quem vive o lado da operação real de redes: PDV, estoque, compras, gestão, integração de sistemas.
O que vi foi um mercado em aceleração — com investimento real, produto rodando ao vivo nos estandes, e uma concentração de esforços em tendências bem definidas.
Leia mais: Fispal Food Service e Fispal Sorvetes recebem mais de 68 mil visitantes e encerram maior edição da história: O Pavilhão de Tecnologia da Fispal cresceu e trouxe novas tendências em gestãoAs três tendências dominantes do Pavilhão de Tecnologia
1. IA embarcada em tudo
A inteligência artificial deixou de ser promessa e virou produto. Quase todos os expositores de software trouxeram alguma camada de IA — não como diferencial de marketing, mas como funcionalidade integrada à operação. Assistentes analisando vendas em tempo real, sugestão automática de cardápio com base em histórico e clima, previsão de demanda por unidade e por período. A IA saiu dos slides e entrou nos terminais.
2. KDS mais inteligentes e autoatendimento como commodity
O totem de autoatendimento — que há três anos era diferencial — virou peça praticamente obrigatória em qualquer estande de software de pdv. O que evoluiu foi a inteligência por trás: fluxo de pedido mais fluido, integração nativa com pagamento, pesquisa de satisfação e fidelidade dentro da mesma jornada. Os KDS (Kitchen Display Systems) acompanharam essa evolução com interfaces mais limpas e integrações mais robustas com o PDV.
3. Ecossistemas integrados — do pedido ao recebível
A tendência de plataforma única — ou de um hub que conecta múltiplas soluções — ficou clara. O mercado está cansado de sistemas que não conversam entre si. As empresas que chegaram com propostas de integração nativa entre salão, delivery, WhatsApp, financeiro e relatórios gerenciais foram as que mais geraram interesse nos estandes.
O que as empresas levaram para a Fispal
Confira a seguir as soluções apresentadas por alguns dos expositores do Pavilhão de Tecnologia da Fispal Food Service.
Colibri (RS Solutions): Posicionada como “o primeiro e mais completo software de gestão do Brasil”, a Colibri chegou com dois lançamentos relevantes: um gestor de filas inteligente e um menu digital com integração de IA. Estande bem estruturado, com Goomer atuando em parceria no mesmo espaço.
Teknisa: Trouxe IA embarcada com foco explícito em dois problemas reais do setor: escassez de mão de obra e necessidade de decisões baseadas em dados. Destaque para o totem com reconhecimento facial e para tecnologias voltadas à otimização de procurement — a única empresa que mencionou compras como ponto de inovação.
Saipos (ecossistema iFood): Com tagline “inteligência para servir”, o Saipos integra o ecossistema iFood ao lado de Anota AI, 3S Checkout, iFood Pago e iFood para Comer Fora. A proposta é clara: uma camada de gestão conectada do pedido ao recebível, com dados centralizados. Estande com alto volume de visitantes durante todos os dias.

Goomer: Lançou duas novidades concretas: tablets com pagamento integrado e totem vertical de grande porte conectando pedido, pagamento, pesquisa de satisfação e programas de fidelidade em uma única jornada. Novidade adicional: a Goomer Ads, plataforma que transforma os tablets de mesa em mídia para anunciantes, gerando receita extra para o restaurante.
Xmenu: Apresentou o Xmenu 5.0 — nova geração da plataforma com mudanças profundas de interface e funcionalidades. Estande com demonstrações ao vivo do Xmenu Salão, Delivery e Balcão, além do Xmenu TAG renovado, solução de etiquetagem inteligente.
TakEAT: Tecnologia para restaurantes com foco em autoatendimento e gestão de operação.
Desbravador: Trouxe o FastPay — solução compacta voltada à informatização de micro e pequenos estabelecimentos. Aposta no segmento de entrada, com proposta de baixo custo de implantação.
Politi Academy: Presença importante no pavilhão de tecnologia com foco diferente: capacitação de gestores. Um lembrete de que ferramenta sem pessoa treinada é desperdício de licença.
‘Compras’ ainda é um gap no modelo de gestão
Depois de horas andando na feira, uma percepção ficou clara: o food service brasileiro investiu pesado em tecnologia de venda. A jornada do cliente — do primeiro contato com o cardápio até o pagamento e a avaliação — está completamente mapeada, digitalizada e monetizada.
A jornada da compra, ainda não.
CMV não sangra no PDV. Sangra na cotação que ninguém compra. No fornecedor que ficou caro enquanto ninguém acompanhava. Na compra descentralizada entre unidades que resulta em preços diferentes para o mesmo insumo. Na negociação sem histórico. No pedido que saiu por WhatsApp e não gerou nenhum dado gerenciável.
Para redes e franquias, resolver o lado da compra pode valer mais do que qualquer totem de autoatendimento. A diferença entre comprar bem e comprar mal pode ser maior do que a diferença entre vender muito e vender pouco.
O pavilhão mostrou que o mercado sabe disso — mas ainda não transformou esse entendimento em produto. A próxima onda de eficiência em food service vai vir de quem conseguir conectar o que se compra, de quem se compra e por quanto, com a mesma inteligência que hoje conecta o pedido do salão ao KDS da cozinha.
O que esperar dos próximos 12 meses
Com base no que foi apresentado na Fispal 2026, algumas tendências devem ganhar tração nos próximos meses:
• IA como camada padrão de qualquer ERP ou PDV de food service — não como diferencial, mas como expectativa mínima do mercado.
• Consolidação de ecossistemas: menos integrações aleatórias por API entre sistemas diferentes, mais hubs nativos com camadas mais padronizadas.
• Expansão do autoatendimento para operações menores.
• Pressão crescente sobre CMV e gestão de compras à medida que os custos operacionais continuam subindo.
• Entrada de soluções de procurement digital no radar das redes de alimentação.