*Por Bethânia Vargas
Durante anos, o suplemento alimentar ocupou um lugar muito específico no imaginário do consumidor brasileiro como o produto da academia. Estava na mochila de quem treinava cedo, na bancada de quem pesava a proteína na balança, no vocabulário de quem falava em ganho de massa, definição e performance. Era funcional, mas reduzido.
No entanto, esse cenário mudou. E a mudança foi profunda o suficiente para redefinir quem compra suplementos, mas, principalmente, por que compra, como usa e o que espera de um produto que, cada vez mais, integra a rotina de saúde preventiva de milhões de pessoas.
Em 2025, o setor registrou crescimento de 15%, movimentando cerca de R$ 7,6 bilhões, segundo dados da BRASNUTRI com base em levantamento da Euromonitor International. A projeção para 2030 é de que o faturamento alcance R$ 13,8 bilhões, consolidando o Brasil entre os cinco maiores mercados de suplementos do mundo.
Mais do que volume, o que esse crescimento revela é uma mudança de comportamento considerável, uma vez que dados do Ministério da Saúde indicam que 59% dos lares brasileiros já têm pelo menos uma pessoa que consome suplementos regularmente, um número que dificilmente se sustentaria se o produto ainda fosse visto apenas como acessório de academia.
Acompanho essa transição de perto, tanto pelo meu trabalho no desenvolvimento de produtos quanto pela leitura dos dados de mercado e pelo contato com profissionais de saúde. O que vejo é uma virada de paradigma que poucos setores experimentam com tanta nitidez, onde o suplemento passou de um atalho estético para se tornar uma ferramenta de gestão de saúde ao longo da vida.
A primeira grande força por trás dessa transformação é demográfica. O Brasil envelhece rapidamente. Projeções do IBGE indicam que, nas próximas décadas, o país terá mais idosos do que jovens. Mas, diferentemente de gerações anteriores, a população que está chegando aos 50, 60 e 70 anos não quer só viver mais, quer viver bem. Com autonomia, mobilidade, clareza mental e energia. Esse desejo gerou uma demanda nova por produtos que antes nem existiam nessa prateleira.
Ao mesmo tempo, observo que as faixas etárias mais jovens também mudaram sua relação com a suplementação. O consumidor de 25 a 40 anos de hoje não usa creatina só para performar melhor no treino. Ele leu sobre neuroproteção. Sabe que ômega-3 tem papel anti-inflamatório sistêmico. Pesquisa vitamina D antes de comprar, não apenas depois de ouvir o médico prescrever. É um perfil mais informado, mais exigente e, sobretudo, mais orientado à prevenção do que à correção.
A suplementação reativa para proativa é, talvez, a mudança mais estrutural que estou observando no setor. Por muito tempo, o suplemento entrava na vida das pessoas quando algo já havia falhado, seja uma deficiência diagnosticada, uma lesão em recuperação, um cansaço que não passava. Hoje, ele entra como parte de um protocolo de saúde planejado junto com médicos, nutricionistas e outros profissionais.
Isso tem implicações diretas sobre o perfil dos produtos que o mercado demanda. Formatos práticos para o dia a dia, como cápsulas, sachês, gomas e bebidas funcionais, ganham espaço porque o consumidor quer praticidade, não só eficácia, e ingredientes com respaldo científico robusto passam a ser critério de compra.
O papel da indústria nessa transição
Do ponto de vista do desenvolvimento de produtos, esse novo cenário exige mais. Não basta reformular um whey com um claim de imunidade ou adicionar vitaminas a um pré-treino. O consumidor que busca suplementação para prevenção, longevidade e saúde metabólica é mais criterioso, mais disposto a pesquisar e mais sensível a inconsistências entre promessa e entrega.
Segundo levantamento da Redirection International, o crescimento do setor é impulsionado por três fatores que se retroalimentam: envelhecimento da população, mudanças no comportamento do consumidor e avanços regulatórios. É exatamente essa combinação que estou observando no dia a dia do desenvolvimento de produtos.
Isso nos obriga, como setor, a investir mais em ciência dos ingredientes, em rastreabilidade, em formulações que considerem biodisponibilidade real e não apenas a presença do ativo na lista de componentes. A qualidade não é isoladamente um diferencial, é uma exigência de entrada.
Há também uma responsabilidade regulatória crescente. O arcabouço normativo brasileiro para suplementos alimentares tem evoluído, e acompanhar essa evolução com rigor é uma forma de proteger o consumidor e de construir credibilidade de longo prazo para o setor.
O que mais me chama atenção nessa nova fase do mercado é a naturalidade com que o suplemento passou a integrar a rotina das pessoas. Da mesma forma que um cuidado com a alimentação ou com o sono, a suplementação está se tornando parte do protocolo diário de quem pensa em saúde à frente e não momentaneamente.
Quando o produto deixa de ser o que você usa em situações específicas e passa a ser parte do que você faz todos os dias, por escolha e com consistência, é o maior sinal de maturidade de um mercado. A academia continua sendo um canal importante, mas ela já não define o consumidor de suplementos. Hoje, ele está em muito mais lugares, e pensa, acima de tudo, no longo prazo.