*Por Camila Trigueiro

Em 2025, os Estados Unidos (EUA) importaram US$ 6,81 bilhões em carne bovina, sendo o 91º produto mais importado (entre 1.232) no país. As importações vieram principalmente do Canadá (US$ 2,64 bilhões), México (US$ 2,05 bilhões), Austrália (US$ 1,42 bilhão), Nova Zelândia (US$ 147 milhões) e Brasil (US$ 134 milhões), de acordo com o Observatório da Complexidade Econômica (OEC). E, mesmo com o tarifaço em 2025, o Brasil bateu recorde de exportações aos EUA com um aumento de 20,9% em relação a 2024.

Importações (em US$) de Carne Bovina dos Estados Unidos por País de Origem (2025). Fonte: OEC, 2026.

Nos Estados Unidos, o principal uso da carne bovina está associado à produção de carne moída (ground beef), que representa quase a metade do consumo per capita no país e constitui a base de produtos amplamente consumidos, como hambúrgueres e alimentos processados.

De acordo com o United States Cattlemen’s Beef Board, para atender à demanda doméstica por hambúrgueres de fast-food acessíveis, os EUA precisam, definitivamente, importar carne. E isso se consolidou com a queda no número de animais no rebanho bovino estadunidense, que tem consistentemente reduzido devido, principalmente, à seca, que diminuiu a disponibilidade de pastagens e a produção de forragem nos estados norte-americanos, além dos ciclos naturais de produção pecuária. Como resultado, o Meat Import Council of America (MICA), sinalizou que a produção de carne bovina norte-americana está em queda e deve permanecer assim até 2027 ou mais. Isso torna as importações essenciais para atender à demanda dos consumidores e sustentar os setores de alimentação e varejo no mercado estadunidense.

Já no início de 2026, os EUA estão enfrentando a primavera mais seca da história, com racionamento de água e incêndios devido à escassez de chuvas e calor intenso, com mais de 60% do seu território sob estiagem (Neves, 2026). E o impacto sobre a pecuária já é notado pois foi estimado que 75% das vacas de corte dos EUA estão em áreas de seca. Dessa forma, é impossível não lembrar o quanto o clima e a economia têm se tornado fatores fortemente relacionados. Variações climáticas extremas afetam a produção e impactam a renda dos produtores e a lucratividade das empresas.

Observando esse cenário, é notório o quanto a preservação das florestas, especialmente da Floresta Amazônica, é fundamental na regulação do clima, principalmente por sua função como grande reservatório de carbono e por sua influência no ciclo hidrológico. A vegetação amazônica armazena grandes quantidades de carbono, cuja liberação, em casos de desmatamento ou queimadas, contribui diretamente para o aumento da concentração de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. 

Além disso, por meio da evapotranspiração, a floresta libera vapor d’água que auxilia na formação de chuvas em diversas regiões da América do Sul, o que é necessário para a manutenção dos regimes pluviométricos. A degradação da floresta, portanto, compromete a estabilidade climática, colabora para intensificação de eventos extremos e reduz a disponibilidade hídrica. Tudo isso, pode ser traduzido em crise climática e instabilidade econômica sobre os setores de produção. Daí a necessidade de integrar produção e preservação nas cadeias produtivas.

Leia mais: Brasil lidera produção e exportação de carne bovina, mas enfrenta desafios de sustentabilidade [Ebook]

No imaginário global, a Floresta Amazônica é frequentemente associada quase exclusivamente à exportação de produtos icônicos e sustentáveis, como o açaí, que ganhou destaque nos mercados internacionais como símbolo da biodiversidade amazônica. Essa percepção, embora parcialmente verdadeira, simplifica uma realidade muito mais complexa e diversificada da economia regional, em que outros produtos também desempenham papel relevante nas cadeias globais de abastecimento.

Fato é que o açaí, que tem ganhado o mundo, vem originalmente da região amazônica, mas não é só açaí que a Amazônia exporta. A Amazônia exporta carne para hambúrguer também.  Para os Estados Unidos, em específico, há 15 plantas frigoríficas nos estados de Rondônia, Mato Grosso e Tocantins, com uma capacidade de abate de 11 mil animais por dia e que exportam frequentemente matéria-prima que poderá ser usada para a produção de hambúrguer e outros preparos no food service norte-americano.

Contudo é importante lembrar que na Amazônia, a pecuária ainda tem exercido forte pressão sobre a floresta, pois 90% da área desmatada nos últimos anos tem tido como o seu primeiro uso a pastagem (Mapbiomas, 2025). E por isso, é tão importante que o setor produtivo da cadeia da carne mitigue os seus impactos e adapte as suas práticas para que a pecuária possa evoluir sem desmatar novas áreas.

Dados do Radar Verde (2025), demonstram que frigoríficos que operam na Amazônia e exportam para os Estados Unidos, embora estejam atuando sobre uma área com alto grau de exposição ao risco de desmatamento, ainda não conseguem demonstrar que controlam totalmente a origem do gado e que estes animais não vieram de áreas desmatadas ilegalmente ou recentemente desmatadas.

Distribuição dos frigoríficos da Amazônia que exportam para os Estados Unidos e seu desempenho quanto ao compromisso contra o desmatamento, segundo o Radar Verde

As recomendações do Radar Verde para a aquisição de carne bovina livre de desmatamento sugere que os consumidores americanos dêem preferência a compra de carne de frigoríficos que operem em regiões com menor risco de desmatamento e que mitiguem os seus impactos através da adoção de políticas de desmatamento zero (abrangendo fornecedores diretos e indiretos) e com a devida comprovação de que essas políticas são de fato implementadas através de auditorias independentes. 

Adicionalmente, a pesquisa recomenda a ampliação da transparência por parte do poder público, com a disponibilização de dados de rastreabilidade, como Guias de Trânsito Animal (GTAs), e informações ambientais das propriedades, incluindo Cadastro Ambiental Rural (CAR), de modo a facilitar o monitoramento e controle dos frigoríficos sobre as áreas das quais obtém o gado para o abate.

Em síntese, a relação entre a Floresta Amazônica e o mercado global de carne bovina não precisa ser, necessariamente, sinônimo de degradação ambiental. A Amazônia pode, sim, seguir como fornecedora de carne para cadeias internacionais, desde que essa produção esteja ancorada em sistemas robustos de rastreabilidade, transparência e compromisso efetivo com o desmatamento zero. A solução seria, portanto, não interromper essa relação comercial, mas qualificá-la: garantir que a carne que chega ao consumidor seja fruto de uma pecuária responsável, desvinculada da conversão de mais áreas de floresta.

*Camila Trigueiro é pesquisadora do Radar Verde e do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).