A gelatina bovina está consolidando sua posição como uma proteína natural, funcional e altamente versátil no mercado de alimentos e suplementos. Durante a palestra “Gelatina e Saudabilidade”, realizada no Innovation Hub, atração da FiSA 2026, Miguel Vicentin, especialista em assistência técnica, inovação e novos desenvolvimentos da Gelco, apresentou dados científicos e tendências de mercado que reforçam o papel estratégico deste ingrediente para a indústria alimentícia.
A apresentação abordou aspectos fundamentais do ingrediente, incluindo sua definição, matéria-prima, perfil nutricional, benefícios associados, evidências científicas, tendências de mercado e aplicações práticas na indústria.
O que é gelatina e como é produzida
Vicentin explicou que “a gelatina é uma proteína natural obtida da pele bovina a partir da hidrólise parcial do colágeno”. O processo de produção envolve extrações realizadas com água quente em torno de 60 a 70 graus, momento em que se inicia o desentrelaçamento da cadeia proteica. “Durante o processo de desentrelaçar essa proteína que era insolúvel, ela se transforma em uma proteína solúvel e que é muito utilizada nas aplicações [de produtos]”, detalhou o especialista.
Segundo dados de mercado apresentados, 35,1% da gelatina produzida em 2024 é de origem bovina. A Gelco produz 100% da sua gelatina e colágeno hidrolisado a partir da pele bovina. O especialista mencionou que existem outras fontes no mercado, incluindo pele de suínos, ossos bovinos e de suínos, peixe e aves, principalmente para o colágeno tipo 2 proveniente do externo do frango, produzido fora do Brasil. A escolha da matéria-prima depende do tipo de aplicação, do alvo de mercado e do consumidor final.
O processo de produção da gelatina envolve várias etapas criteriosas. A matéria-prima é selecionada nos curtumes, seguida de tratamento e lavagem industrial para remoção completa de gordura através da dosagem de químicos. Posteriormente, ocorre a extração com adição de água quente, que pode ser realizada por batelada ou de forma contínua, sempre alimentando os extratores com matéria-prima e água quente.
As etapas seguintes incluem purificação e evaporação, com filtração para garantir a pureza e qualidade do colágeno, seguidas de concentração e secagem. Como produto final, obtém-se a gelatina pronta para uso em diversas aplicações do mercado, incluindo gelatina farmacêutica para cápsulas duras e moles, além de aplicações na área de alimentos, como lácteos e sobremesas.

Perfil nutricional diferenciado
Um dos destaques da apresentação foi o perfil nutricional concentrado da gelatina. O ingrediente apresenta entre 85% e 90% de proteína pura, sendo “um dos perfis mais concentrados de uma proteína animal”, segundo Vicentin. A composição é rica em glicina, prolina e hidroxiprolina, que são os aminoácidos-chave que caracterizam uma proteína colagênica.
O especialista enfatizou que proteína da gelatina de colágeno da Gelco é composta apenas de proteína, água e sais minerais, sem nenhum tipo de aditivo. Além disso, o ingrediente apresenta ausência de gordura, carboidratos e glúten, e possui baixo valor calórico, características que o tornam extremamente versátil para formulações voltadas à saudabilidade.
Vicentin apresentou diversos benefícios associados ao consumo de gelatina. Para a saúde óssea e articular, o suporte dos aminoácidos-chave é fundamental para a manutenção dos ossos, da matriz óssea e cartilagens. Para pele, cabelo e unhas, a proteína oferece suporte para esses tecidos tegumentares e anexos.
Na recuperação muscular, o especialista esclareceu que “a proteína do colágeno não faz crescer músculo, diferente da proteína do whey protein, ela serve como sustentação”. Ele explicou que em volta do músculo existem vários tecidos compostos praticamente de colágeno, e “para garantir o crescimento muscular de qualidade saudável precisa ter a união dos dois, então o colágeno vem como um suporte para crescimento muscular”.
Outros benefícios incluem saciedade e controle de peso, sendo de alta digestibilidade, “encaixa muito bem para dietas e no dia a dia de quem está fazendo uso das canetas emagrecedoras”.
Para a saúde intestinal, vários estudos estão sendo publicados apontando a glicina como fator-chave para a saúde da mucosa intestinal, sendo que o colágeno possui mais de 20% de glicina em sua composição. Quanto ao sono e relaxamento, a glicina age como neurotransmissor, abaixando a atividade de alguns neurônios e ajudando no momento de dormir.
Estudo científico comprova biodisponibilidade
Um estudo publicado pela Food Chemist, revista britânica de alta relevância, realizado na Keio University de Tóquio, foi apresentado pelo especialista da Gelco. O estudo comparou gelatina, gelatina hidrolisada (colágeno hidrolisado) e gelatina hidrolisada de baixo peso molecular.
Foram selecionadas nove mulheres entre 20 e 22 anos, que suplementaram com 10 gramas de cada tipo de produto em jejum de 12 horas. Os resultados avaliaram a absorção de hidroxiprolina, prolina-hidroxiprolina (um dipeptídeo bioativo) e hidroxiprolina-glicina.
Vicentin destacou que “esse foi o primeiro estudo a demonstrar que a gelatina não hidrolisada é tão eficaz quanto o colágeno na entrega desses peptídeos na corrente sanguínea”. Quanto ao tempo de absorção, a diferença foi mínima: para hidroxiprolina livre, os valores ficaram entre 1,1 e 1,4 horas, demonstrando que “a absorção é mais rápida nos hidrolisados, a gelatina leva um pouco mais tempo, mas já atinge níveis relevantes”.
Mercado global em expansão acelerada
As tendências de mercado apresentadas por Vicentin revelam um crescimento robusto. O mercado global da gelatina estava em 7,1 bilhões de dólares em 2024, com projeção de quase 93% de aumento até 2030, chegando a mais de 13 bilhões de dólares. Este crescimento é impulsionado pelo movimento clean label, busca por ingredientes naturais, nutrição funcional, alta demanda por proteína, envelhecimento saudável, público fitness, e bem-estar em geral.
O uso de gelatina também tem um impacto positivo no meio ambiente. O especialista lembrou que “anos atrás, quando a gelatina virou um produto de alto teor no mercado, ele era um resíduo industrial. Então os curtumes não sabiam o que fazer e como destinar essa matéria-prima”. Sendo um produto upcycling, é uma oportunidade de comunicação com o consumidor.
A gelatina é vista como saudável, natural e ambientalmente positiva, estando amplamente presente em hospitais, merendas escolares, dietas especiais e cozinhas domésticas.
Aplicações práticas na indústria
Vicentin apresentou o amplo espectro de aplicações da gelatina na indústria. A Gelco fornece gelatina farmacêutica para cápsulas moles e duras, além de gominhas, que “está em alta no mercado funcional, sendo uma via de administração bem utilizada, principalmente para o público fitness “.
Na confeitaria, o ingrediente é utilizado em marshmallow, balas e produtos aerados. Em bebidas e lácteas, destaca-se o uso em iogurtes com proteína e sobremesas lácteas como mousses. Na área de cosmético, nutricosmético e cuidados pessoais, a gelatina atua na formação de filme, evitando a perda transepidérmica de água e deixando a pele mais hidratada.
Inovação apresentada no estande
Durante a apresentação, Vicentin aproveitou a oportunidade para divulgar uma inovação da Gelco. “Trouxemos para a FiSA a gelatina como proteína, uma barra de gelatina com 3,4 gramas de proteína por porção”, convidando os participantes a conhecerem o protótipo no estande da empresa para entender a textura e o conceito do produto.
Encerrando sua apresentação, Miguel Vicentin reforçou que a gelatina é uma proteína natural, funcional e altamente versátil, e a pele bovina é uma das principais e mais tradicionais fontes de gelatina do mundo. “Evidências científicas crescentes reforçam sua relevância para a saudabilidade. As tendências de mercado apontam crescimento robusto e contínuo nos próximos anos”, finalizou.
A palestra demonstrou que a gelatina bovina se posiciona como um ingrediente estratégico para a indústria alimentícia, combinando perfil nutricional diferenciado, comprovação científica de eficácia, sustentabilidade ambiental e versatilidade de aplicações, atendendo às demandas crescentes por produtos naturais, funcionais e alinhados aos conceitos de saudabilidade que dominam as tendências globais do setor.