Neste 23 de setembro, data em que se comemora o Dia Nacional do Sorvete, o setor recebe um retrato detalhado sobre as mudanças no comportamento de compra do público brasileiro.

Desenvolvido pela Associação Brasileira do Sorvete e Outros Gelados Comestíveis (ABRASORVETE) junto à Empresa Júnior da Fundação Getulio Vargas (EJFGV), o trabalho consultou 2.500 indivíduos em todas as regiões do país e revelou de que forma alterações relacionadas à saúde, ao cenário econômico e aos hábitos de vida estão redesenhando um dos segmentos mais consolidados do mercado nacional.

Os resultados demonstram que cada brasileiro passou a ingerir, em média, 8,68 litros de sorvete por ano, o que representa uma elevação de 13% frente aos 7,7 litros verificados dois anos antes pela ABRASORVETE.

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Mudança de paradigma no mercado

Os números sinalizam um momento de virada e maturidade para a indústria sorveteira.

“O mercado de sorvetes no Brasil está passando por uma verdadeira revolução guiada pela evolução do perfil do consumidor. Vemos hoje uma busca muito mais clara por valor e qualidade do que por quantidade. As pessoas não querem deixar de tomar sorvete, mas estão redefinindo como, quando e por que consomem — seja buscando porções menores e com apelos funcionais, mantendo a lealdade às suas marcas preferidas ou exigindo experiências de alto sabor e naturalidade. Esse estudo nos dá a radiografia exata para guiar o futuro do setor e antecipar as grandes tendências de consumo no país.” – Márcio Favaro, presidente da ABRASORVETE

Destaques do levantamento para o setor

1. Medicamentos para emagrecimento alteram padrão de consumo, mas não eliminam a demanda

A disseminação dos remédios injetáveis da classe GLP-1 (como Ozempic, Wegovy e Mounjaro) modificou os hábitos alimentares de um segmento relevante dos brasileiros, porém o sorvete permanece presente na rotina. Aproximadamente 30% dos participantes da pesquisa declararam fazer uso ou já terem utilizado medicações desse tipo.

Dos que estão em tratamento no momento, 54,1% afirmam ter diminuído a quantidade ou o tamanho das porções consumidas. Entretanto, ao contrário de eliminarem o produto de suas escolhas, esse público se caracteriza como consumidor heavy user e bastante criterioso:

  • Alta recorrência: 11,2% das pessoas que utilizam medicamentos em caneta ingerem sorvete diariamente — índice 4,5 vezes superior ao registrado entre quem não usa esse tipo de medicação (2,5%).
  • Busca por funcionalidade: 40,5% procuram alternativas zero açúcar e 36,2% preferem versões proteicas.
  • Abertura para investir mais: 22,6% demonstram total disposição para pagar valores superiores por produtos funcionais e premium.
  • Retorno ao consumo: Ao cessar o uso das canetinhas, a limitação no consumo diminui de 34,1% para somente 13,8%, evidenciando que o interesse pelo produto se mantém.

A ABRASORVETE indica o mix de produtos funcionais em embalagens compactas. Esse perfil mantém compras frequentes e está disposto a pagar mais por diferenciais.

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2. Pressão nos preços leva à redução de volume, mas não à troca de marca

Ainda que o orçamento familiar esteja pressionado, o público brasileiro revela alta lealdade às marcas de sorvete de sua preferência. Diante de reajustes significativos nos valores:

  • 51,7% optam por diminuir a periodicidade das compras.
  • 14,5% escolhem embalagens ou tamanhos mais econômicos.
  • Somente 25,4% consideram substituir por uma marca de menor custo.

De cada 4 consumidores, 3 preferem consumir com menor frequência a abandonar a marca que costumam comprar.

A associação recomenda fortalecer o posicionamento da sua marca e avaliar a inclusão de formatos menores como alternativa para manter o giro em momentos de alta de preços.

3. Sabor é o atributo dominante no momento da decisão de compra

No instante em que o cliente se encontra diante do freezer ou do balcão da loja, um critério se sobressai de forma expressiva:

  • 62,6% definem a aquisição com base no sabor.
  • 15,6% levam em conta principalmente o valor.
  • 5,2% dão prioridade isolada à marca.

O sabor tem peso 12 vezes superior ao da marca na hora da escolha final. A marca reconhecida ajuda a reduzir a incerteza, mas é a experiência sensorial do sabor que garante a compra.

Excelência sensorial é indispensável. Por isso, o produtor de sorvete deve concentrar esforços no aprimoramento de sabores autênticos e inovadores. Oferecer provas pode ser determinante para fechar vendas, afirma a ABRASORTE.

4. Consumo no inverno é real e delivery ainda enfrenta obstáculos

A pesquisa derrubou uma percepção antiga do mercado: a ideia de que o brasileiro deixa de consumir sorvete durante o frio. Apesar de o verão representar o momento de maior demanda (com 71,3% consumindo no mínimo uma vez por semana), somente 8,2% afirmaram nunca ingerir sorvete no inverno.

No canal digital, porém, o segmento ainda encontra desafios:

  • Predominância dos canais tradicionais: Sorveterias e gelaterias físicas (43,2%) e supermercados (35,3%) respondem por 78,5% do volume comercializado.
  • Limitação no delivery: As plataformas de entrega correspondem a apenas 4% das transações. O maior impedimento é financeiro: 50,6% desistem devido à taxa de entrega elevada e 39,7% apontam o tempo de espera longo como obstáculo.

Diante desse cenário, a associação recomenda não interromper ações comerciais nos meses frios. Para delivery de sorvetes e sobremesas geladas, busque acordos que possibilitem redução no custo do frete ou defina valores mínimos que tornem a operação viável.

5. Açaí compete por momentos de consumo diferentes

O açaí ultrapassou a condição de simples rival e conquistou um lugar distinto nos hábitos alimentares. O estudo mostrou que 31,3% dos consumidores escolhem o açaí pela possibilidade de personalização (adicionando frutas, caldas e complementos).

Paralelamente, 18,3% já encaram o açaí como uma refeição rápida ou substituto de lanche (especialmente em contextos pré e pós-treino), enquanto o sorvete tradicional ainda é fortemente associado a momentos de lazer e sobremesa em família (ocasião citada por 64,4% dos entrevistados).

Investir em customização no seu estabelecimento e avaliar o desenvolvimento de linhas voltadas para consumo funcional (antes ou depois de atividades físicas) é a indicação dos especialistas.

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Expectativas futuras do consumidor

A preferência por produtos premium já está consolidada: 73,7% dos participantes declaram que investiriam mais em um sorvete gourmet ou artesanal. Entre as características que mais justificam valores mais altos, sobressaem a produção artesanal (citada por 55%) e o uso de ingredientes importados ou de origem específica (49,5%).

Quanto aos apelos saudáveis, o que mais atrai o público não são as exclusões (como zero lactose ou sorvete vegano), mas sim a adição de benefícios reais: ingredientes naturais aumentariam a propensão de compra de 40,4% dos brasileiros, seguidos por produtos ricos em proteína (34,8%).

“O consumidor de hoje não busca apenas um doce, ele busca uma experiência. O futuro do nosso setor passa obrigatoriamente por essa entrega de valor agregado, onde o artesanal e o funcional caminham juntos para satisfazer um público que entende o sorvete como um alimento prazeroso e, ao mesmo tempo, compatível com seu estilo de vida”, afirma Fávaro.

A ABRASORVETE indica que o fabricante invista ou expanda categorias premium e artesanais; deixe claro a procedência dos insumos e o método de fabricação; e incorpore benefícios funcionais (proteína, ingredientes naturais) sem sacrificar a qualidade sensorial.