O avanço dos medicamentos agonistas de GLP-1, usados no tratamento da obesidade e do diabetes, está mudando a estratégia da indústria de alimentos e bebidas. Empresas do setor aceleram o desenvolvimento de produtos com maior densidade nutricional, ricos em proteínas, fibras, vitaminas e minerais, para atender a um consumidor que passou a comer menos, mas exige mais qualidade da alimentação. A transformação foi discutida nesta quarta-feira (5), durante o painel “GLP-1 e a Nova Arquitetura do Consumo: Impactos na Indústria de Alimentos”, do Summit Future of Nutrition.
O movimento tende a ganhar força com a ampliação do acesso aos tratamentos no Brasil. Recentemente, o primeiro paciente do Rio Grande do Sul iniciou tratamento com canetas emagrecedoras em um projeto do SUS conduzido por hospitais federais, enquanto a Anvisa registrou novas canetas de semaglutida após o fim da patente do medicamento de referência, ampliando a concorrência e a expectativa de maior oferta desses produtos no mercado.
No comportamento dos usuários dos medicamentos, a mudança aparece. Dados apresentados pela Innova Market Insights mostram que 71% das pessoas em tratamento com agonistas de GLP-1 afirmam ter adotado uma alimentação mais saudável após iniciar o uso da medicação. Frutas, vegetais, laticínios e alimentos de origem vegetal aparecem entre as categorias com maior crescimento de consumo, ao passo que doces, bolos, biscoitos e refrigerantes estão entre os produtos mais reduzidos.
“Os consumidores estão buscando alimentos com maior densidade nutricional, ricos em proteínas e fibras, à medida que as empresas desenvolvem produtos capazes de atender a essas novas necessidades”, afirmou Christine Lopes, Key Accounts & Business Development Manager LATAM da Innova Market Insights.
Segundo a consultoria, o controle do peso se consolidou como uma das principais preocupações relacionadas à saúde física. O tema é prioridade para 49% dos consumidores brasileiros, percentual acima da média global de 40%. Entre as gerações mais jovens, a preocupação também cresce: 42% da Geração Z e dos millennials afirmam estar atentos ao controle do peso.
O avanço dos medicamentos à base de GLP-1 também muda a relação do consumidor com a alimentação. De acordo com Christine, o mercado observa uma busca maior por produtos enriquecidos, ricos em proteínas e fibras, enquanto consumidores mais velhos tendem a priorizar a redução de ingredientes considerados prejudiciais, como o açúcar.

Consumidores mais exigentes
Para Tatiana Marques, gerente de Metabolic Health da Nestlé Brasil, a indústria vive uma fase de adaptação diante de consumidores que estão mais exigentes quanto à qualidade nutricional dos alimentos.
“Não existe um único perfil de paciente em uso de GLP-1. Isso exige soluções diferentes, com foco em qualidade nutricional e maior aporte de proteínas”, afirmou.
Segundo a executiva, cerca de 70% dos consumidores que utilizam medicamentos à base de GLP-1 também recorrem a suplementos, principalmente proteínas, vitaminas e minerais, reforçando a tendência de crescimento de produtos voltados à complementação nutricional.
Durante o painel, a médica nutróloga Marcella Garcez destacou que a redução do apetite provocada pelos medicamentos torna ainda mais importante a qualidade da alimentação. Para ela, a ingestão adequada de proteínas, vitaminas e minerais é fundamental para preservar a massa muscular e evitar deficiências nutricionais durante o tratamento.
“O tratamento da obesidade não se resume ao uso da medicação. Os agonistas de GLP-1 representam um avanço importante, mas precisam estar associados à alimentação adequada, atividade física e acompanhamento multiprofissional”, afirmou.
Marcella também apresentou pesquisas sobre peptídeos bioativos de colágeno capazes de estimular naturalmente a produção dos hormônios GLP-1 e GIP, envolvidos no controle da glicemia e da saciedade. Entre os resultados citados está o estudo clínico Nextida GC, que apontou aumento da secreção desses hormônios e redução do pico de glicose após as refeições em participantes saudáveis e pré-diabéticos. No entanto, os estudos ainda estão em desenvolvimento.