*Por Márcio Favaro, presidente da ABRASORVETE
O mercado de gelados comestíveis no Brasil atravessa uma transformação profunda no comportamento do consumidor. Uma pesquisa inédita encomendada pela ABRASORVETE à Empresa Júnior da Fundação Getulio Vargas (EJFGV), que ouviu 2.500 pessoas em todo o país, revela lições valiosas para guiar os próximos passos da nossa indústria, do varejo e de todo o ecossistema de fornecedores.
O “efeito canetinhas” e a migração para a alta densidade nutricional
A ascensão dos medicamentos da classe GLP-1 (como Ozempic, Wegovy e Mounjaro) vem redesenhando o apetite global. Em nosso estudo, cerca de 30% dos entrevistados relataram utilizar ou já ter utilizado esse tipo de medicação. Entre os usuários atuais, 54,1% reduziram o tamanho das porções consumidas.
No entanto, esse público não abandonou o sorvete, pelo contrário, tornou-se um perfil heavy user altamente exigente: 11,2% desses usuários tomam sorvete diariamente, mas exigem contrapartidas funcionais. 40,5% buscam produtos zero açúcar e 36,2% optam por versões proteicas, com 22,6% dispostos a pagar mais por essas linhas. O direcionamento para as fábricas é direto: o consumo exige porções menores, porém repletas de valor agregado e densidade proteica.
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Fidelidade à marca frente à inflação de alimentos
Mesmo com a pressão sobre a renda, diante de aumentos de preço decorrentes da inflação de insumos, 3 em cada 4 consumidores preferem diminuir a frequência ou comprar embalagens menores do que trocar por uma marca mais barata. Apenas 25,4% aceitam migrar para marcas de menor custo.
A pesquisa revelou que o sabor é o fator decisivo para 62,6% dos compradores — pesando 12 vezes mais do que a marca isoladamente. A marca atua como selo de confiança, mas é a entrega da experiência sensorial do sabor que garante a recompra.
Gargalos no delivery e a complementaridade com o açaí
Enquanto sorveterias físicas e supermercados respondem por 78,5% das vendas da categoria, os aplicativos de delivery representam modestos 4% das compras. Taxas de entrega elevadas (motivo de desistência para 50,6%) e tempo de espera longo (39,7%) formam o gargalo logístico a ser resolvido.
Já na disputa de ocasiões com o açaí, percebe-se um nicho complementar: enquanto 64,4% associam o sorvete tradicional a momentos de lazer e sobremesa em família, o açaí conquistou espaço como lanche funcional ou refeição rápida pós-treino (18,3%).
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O futuro: Indulgência funcional e experiência gourmet
A busca por produtos premium é a nova régua do mercado: 73,7% dos entrevistados afirmam que pagariam mais por um sorvete gourmet ou artesanal, valorizando a produção artesanal (55%) e ingredientes naturais ou de origem (40,4%).
O futuro do setor passa obrigatoriamente pela entrega de valor. O consumidor busca uma experiência compatível com seu estilo de vida, equilibrando indulgência, saudabilidade e verdade em cada ingrediente.