Uma tecnologia inédita de fermentação com leveduras é capaz de multiplicar em mais de 4,5 vezes o teor proteico da farinha do mesocarpo de babaçu – de 1,5% para cerca de 7%, transformando um coproduto extrativista de baixo valor comercial em ingrediente funcional com demanda industrial real para o setor de proteínas alternativas.
O projeto da BIOINFOOD, deep tech brasileira em biotecnologia industrial, foi financiado pelo Programa Biomas InovAmazônia do GFI Brasil, com aporte de R$ 2,7 milhões do Fundo JBS pela Amazônia. Foi desenvolvido em parceria com o ITAL (Instituto de Tecnologia de Alimentos de Campinas) sob as lideranças do Osmar Netto, PhD, co-fundador da BIOINFOOD e pela Dra. Roseli Ferrari, do CCQA-ITAL.
Teve apoio também da Rede Terra do Meio do Alto Xingú, no Pará, fornecendo amostras e acolhendo a equipe do projeto em visitas às comunidades. A Rede é uma aliança entre povos indígenas, ribeirinhos (beiradeiros) e agricultores familiares, que somam 35 organizações e 9 milhões de hectares protegidos. A rede fortalece a economia local e a floresta em pé, comercializando produtos extrativistas sob a marca “Vem do Xingu”.
Relacionado: Upcycling: conceitos e cases de reutilização de alimentos e ingredientes na indústria: Biotecnologia transforma coproduto amazônico em ingrediente proteicoA cadeia do babaçu: potencial represado
O babaçu é uma das maiores riquezas subutilizadas do agro brasileiro. Segundo o IBGE, em 2022 foram produzidas 30.478 toneladas de amêndoas, gerando R$ 71,3 milhões com uma produção integralmente extrativista, concentrada no Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins, em 334 municípios distribuídos por 12,5 milhões de hectares de babaçuais. O potencial técnico da área disponível é de 1,5 milhão de toneladas/ano e a produção atual representa entre 1% e 4% desse.
Estima-se que cerca de 62 mil pessoas em 50 mil domicílios dependem da atividade extrativista do babaçu, segundo levantamento acadêmico publicado na Revista ESA com base em dados dos censos agropecuário e demográfico.
No centro dessa cadeia estão as quebradeiras de coco, mulheres que ao longo de gerações desenvolveram saberes e práticas coletivas para coleta, quebra e beneficiamento do coco, organizadas em movimentos como o MIQCB (Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu), presente no Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins desde os anos 1990.
O gargalo estrutural é claro: a cadeia permanece presa ao extrativismo manual e ao baixo valor agregado do óleo, produto principal, enquanto a farinha residual do processamento segue sem destino industrial relevante. É exatamente sobre esse coproduto que a tecnologia da BIOINFOOD atua.
“O InovAmazônia demonstrou que a biodiversidade brasileira não precisa ficar só no discurso – ela pode estar no prato. O projeto da BIOINFOOD com o babaçu é um exemplo concreto de como conseguimos uma sustentabilidade ainda maior quando olhamos para o aproveitamento completo de espécies nativas, agregando valor a partes que hoje são subaproveitadas. O Brasil tem como ser referência global em proteínas alternativas e iniciativas como essa mostram o caminho” – Cristiana Ambiel, Diretora de Ciência e Tecnologia do GFI Brasil.
A tecnologia: do coproduto ao ingrediente industrial de alto valor econômico e nutricional
A farinha do mesocarpo de babaçu, subproduto da extração do óleo, tem originalmente cerca de 1,5% de proteína, o que a confina a aplicações de reduzido valor. A tecnologia combina a seleção high-throughput de cepas de levedura, hidrólise enzimática e fermentação controlada em biorreatores automatizados para converter os açúcares da farinha em biomassa proteica.
O resultado eleva o teor proteico a mais de 7%, gerando um ingrediente com atributos sensoriais e funcionais adequados para aplicação em produtos análogos cárneos: textura fibrosa, sabor equilibrado, cor atrativa e maior densidade nutricional.
A tecnologia já foi validada em escala laboratorial e ambiente relevante, com protótipo de hambúrguer plant-based desenvolvido e avaliado. A BIOINFOOD está agora em processo ativo de desenvolvimento de parceiros comerciais para a fase de escala piloto-comercial.
Osmar Netto, co-fundador da BIOINFOOD e líder do projeto, comenta o que muda para o agronegócio brasileiro quando um coproduto extrativista como a farinha do mesocarpo de babaçu deixa de ser coproduto e passa a ter destino industrial de alto valor.
“O que fizemos com o mesocarpo do babaçu é uma prova de conceito para toda a indústria: resíduo com matriz rica em carboidratos fermentáveis pode se tornar plataforma proteica de alto valor–desde que você tenha o micro-organismo certo e o processo adequado. Mas o mais relevante para quem formula é que estamos falando de um ingrediente nacional, rastreável, com cadeia extrativista consolidada e sem pressão sobre novas áreas. Para a indústria que precisa diversificar fontes proteicas e responder à demanda por clean label com origem verificável, esse é exatamente o tipo de matéria-prima que faltava no portfólio brasileiro.” – Osmar Netto, co-fundador da BIOINFOOD e líder do projeto.
Além do babaçu: uma plataforma para coprodutos agroindustriais
O que torna o projeto estratégico para o agronegócio vai além do babaçu. A mesma plataforma de fermentação com leveduras é aplicável a outros coprodutos, abrindo oportunidade para cadeias de escala global, como:
- Farelo de trigo e milho: coprodutos de moagem com geração de centenas de milhões de toneladas/ano globalmente, hoje majoritariamente destinados à ração animal;
- Farelo de arroz: coproduto de beneficiamento com alto volume e baixo aproveitamento proteico no Brasil, maior produtor do hemisfério sul;
- Cascas e subprodutos de oleaginosas nativas: castanha-do-Brasil, macaúba, cupuaçu; com potencial idêntico ao do babaçu e cadeias extrativistas em estruturação.
Em termos de impacto econômico por tonelada, ingredientes proteicos funcionais atingem valores de 500 a mil dólares acima da farinha convencional. Uma planta processando 10.000 t/ano de babaçu em ingrediente proteico poderia representar receitas adicionais de 5 a 10 milhões de dólares anuais – antes de exportações. A mesma lógica se aplica às demais matérias-primas, que têm escala industrial muito superior.
Leia mais: Como as cadeias produtivas da Amazônia podem impulsionar a bioeconomia: Biotecnologia transforma coproduto amazônico em ingrediente proteicoA tecnologia está inserida em dois mercados em expansão simultânea. O mercado global de proteínas alternativas está projetado para atingir 88,8 bilhões de dólares até 2034, crescendo a CAGR de 14,3% ao ano. No Brasil, o segmento movimentou 1,13 bilhão de reais em 2024 – crescimento superior a 14% frente a 2023 – e deve alcançar 1,2 bilhão de reais até 2034.
A demanda internacional por ingredientes proteicos funcionais de origem sustentável, rastreável e com apelo clean-label é crescente – especialmente na Europa e nos EUA. Ingredientes derivados de espécies nativas brasileiras certificadas têm vantagem competitiva real em mercados que valorizam proveniência e impacto socioambiental positivo.
Fundada em 2018 por Gabriel Galembeck, Gleidson Teixeira e Osmar Netto, a BIOINFOOD opera sob modelo de R&D as a Service em biotecnologia industrial, com mais de 20 projetos. Em 2025, venceu o Fi Innovation Awards e o Startup Innovation Challenge da Fi South America.