Nos últimos meses, conflitos em regiões estratégicas como Oriente Médio e Golfo Pérsico voltaram a colocar energia e logística no centro do debate econômico global. Para a indústria de alimentos e bebidas, essas tensões geopolíticas representam muito mais do que oscilações pontuais de preços: elas expõem vulnerabilidades estruturais que afetam desde a produção agrícola até a embalagem final dos produtos.
João Alfredo Nyegray, doutor em internacionalização e estratégia, analisa como esses riscos se traduzem em desafios concretos para a cadeia global de alimentos e, especialmente, para a indústria brasileira. Em entrevista, o especialista também aponta oportunidades estratégicas que podem surgir desse cenário de instabilidade, incluindo o recente acordo entre Mercosul e União Europeia.
Estreito de Ormuz: o gargalo que ameaça fertilizantes e energia
Quando se fala em riscos geopolíticos para alimentos, o Estreito de Ormuz emerge como o ponto mais sensível do sistema global. Segundo Nyegray, “hoje, os principais riscos geopolíticos para a cadeia global de alimentos não são apenas as guerras em si, mas a concentração de vulnerabilidades em poucos gargalos logísticos e energéticos”.
O especialista destaca que cerca de um terço do comércio marítimo global de fertilizantes atravessa essa rota estratégica. “Isso altera completamente a natureza do risco: uma disrupção em Ormuz não pressiona apenas combustível e frete, mas a própria base química da agricultura global”, explica Nyegray.
A UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) vem alertando que o transporte marítimo global já opera sob custos maiores e incerteza crescente, num sistema em que mais de 80% do comércio mundial por volume depende do mar. Para Nyegray, “a cadeia global de alimentos está menos ameaçada por um colapso absoluto e mais por um problema de instabilidade estrutural: oscilações bruscas de preço, atraso, redirecionamento de rotas e repasses sucessivos de custo”.
Da guerra ao supermercado: como a instabilidade percorre toda a cadeia
A instabilidade geopolítica não afeta apenas a produção agrícola. Ela percorre toda a cadeia produtiva em múltiplas camadas até chegar à indústria processadora de alimentos. Nyegray identifica quatro camadas principais de impacto.
A primeira é energética. “Se o Golfo entra em convulsão, o custo de diesel, bunker marítimo, gás e eletricidade tende a subir ou, no mínimo, a incorporar prêmio de risco”, afirma o especialista. Isso afeta diretamente a produção agrícola, o transporte de matéria-prima, a armazenagem refrigerada, o processamento industrial e a distribuição final.
A segunda camada envolve fertilizantes. Como um terço do comércio marítimo global desse insumo passa por Ormuz, o choque “deixa de ser periférico e passa a incidir sobre produtividade agrícola futura, custo de grãos, ração e óleos, com efeitos defasados mas profundos sobre a indústria processadora”, explica Nyegray. Em suas palavras, “a guerra não encarece apenas a safra atual; ela compromete a formação de custo da próxima”.
A terceira camada, frequentemente negligenciada, é petroquímica. As guerras recentes elevaram os preços globais de plásticos e polímeros, com o Oriente Médio respondendo por mais de 40% das exportações globais de polietileno em 2025. “Para a indústria de alimentos, isso significa encarecimento de embalagens, filmes, tampas, garrafas, resinas e diversos insumos indiretos”, destaca o especialista.
A quarta camada é financeira: maior risco geopolítico significa mais volatilidade cambial, mais necessidade de capital de giro e mais dificuldade de precificar contratos longos. Segundo Nyegray, “o efeito agregado é claro: a guerra entra na indústria de alimentos como compressão de margem e quebra de cadência operacional, não apenas como alta pontual de commodities”.
Brasil: potência agroindustrial com vulnerabilidades críticas
Para a indústria brasileira de alimentos, o impacto mais forte decorre de uma contradição estrutural identificada por Nyegray: “o país é potência agroindustrial, mas continua dependente de insumos importados em pontos críticos”.
A Reuters registrou que o Brasil importou 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025, um recorde, justamente quando o governo e o setor passaram a soar o alarme sobre a exposição do país ao choque em Ormuz. “Isso significa que, embora o Brasil tenha grande capacidade de produzir e processar alimentos, parte relevante da competitividade da cadeia depende de uma logística externa sobre a qual ele não tem controle”, analisa o especialista.
O efeito mais sensível para a indústria, segundo Nyegray, “não é uma falta imediata de alimentos, mas a combinação entre custo maior da matéria-prima, frete mais caro, câmbio pressionado e menor previsibilidade de abastecimento”.
Alguns segmentos estão mais expostos do que outros. A cadeia de proteínas, especialmente aves, sente mais rapidamente a pressão porque depende fortemente de ração, energia, refrigeração e exportação. O Oriente Médio responde por cerca de 30% das exportações brasileiras de frango em 2025, e empresas já precisaram redirecionar embarques por rotas mais longas e caras, absorvendo aumento de combustível, armazenagem, transporte e seguro de guerra.
“Isso revela algo importante: o impacto sobre a indústria brasileira não se resume ao custo de produzir, mas inclui o custo de continuar entregando”, observa Nyegray. A própria ABIA informa que o Brasil segue como o maior exportador mundial de alimentos industrializados em volume pelo quarto ano consecutivo e exporta para mais de 190 países. Para o especialista, “quanto mais inserida globalmente é a indústria, maior é sua vulnerabilidade a choques logísticos e geopolíticos”.
Oportunidades estratégicas em meio à crise
Apesar dos desafios, Nyegray identifica oportunidades concretas para a indústria brasileira, embora ressalte que “elas não são automáticas”.
A primeira é de reposicionamento comercial. “Num ambiente em que outros fornecedores ficam mais expostos a guerra, sanções ou gargalos logísticos, o Brasil pode se apresentar como plataforma relativamente mais confiável de oferta de proteínas, açúcar, café, sucos, grãos e alimentos processados”, afirma.
A segunda oportunidade é capturar mais valor na transformação industrial. Segundo o especialista, “em cenários de incerteza, compradores tendem a valorizar menos o fornecedor ocasional de commodity e mais o parceiro capaz de entregar regularidade, padronização, processamento e adaptação logística”. Nesse sentido, “a vantagem brasileira não está apenas em produzir muito, mas em transformar essa escala em contrato, previsibilidade e presença industrial”.
A oportunidade mais estratégica, porém, é interna. Para Nyegray, crises como a de Ormuz expõem onde está a fragilidade real da indústria brasileira: fertilizantes, insumos petroquímicos, embalagens, logística e governança de risco. “Se o setor usar esse momento apenas para vender mais, ganhará receita conjuntural; se usar para redesenhar sua base de suprimentos, diversificar fornecedores, reduzir vulnerabilidade em insumos críticos e integrar melhor compras, supply chain, financeiro e comercial, ganhará competitividade estrutural”, analisa. Em suas palavras, “o ganho verdadeiro não está em aproveitar a crise; está em aprender com ela mais rápido do que os concorrentes”.
Acordo Mercosul-UE: nova fronteira de oportunidades
Uma dimensão adicional amplia o potencial de oportunidade para a indústria brasileira: a entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia. Após mais de duas décadas de negociações, o acordo foi promulgado no Brasil em março de 2026 e deve começar a produzir efeitos já a partir de maio, ainda que de forma gradual e provisória.
Trata-se da criação de uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com cerca de 720 milhões de consumidores, e com eliminação progressiva de tarifas para a maior parte dos produtos — cerca de 95% das exportações do Mercosul para a Europa e 91% no sentido inverso.
Para Nyegray, “isso altera o jogo estratégico em dois níveis”. Num primeiro nível, abre um canal mais competitivo para acesso ao mercado europeu em um momento em que outros fornecedores globais enfrentam maior instabilidade geopolítica. “Em um cenário de disrupção em rotas como o Golfo Pérsico, a Europa tende a buscar fornecedores mais previsíveis e politicamente menos arriscados — e o Brasil pode se posicionar como esse fornecedor”, explica.
No segundo nível, o acordo não é apenas tarifário. “Ele envolve regras, padrões e previsibilidade jurídica, o que favorece contratos de médio e longo prazo, exatamente o tipo de instrumento que ganha valor em ambientes de incerteza global”, destaca o especialista.
Mas há um ponto crítico que precisa ser tratado com realismo estratégico: o acordo também aumenta o nível de exigência. A União Europeia tende a reforçar critérios sanitários, ambientais e regulatórios, e já existem mecanismos de salvaguarda para proteger setores sensíveis, inclusive alimentos. “Isso significa que a oportunidade não é simplesmente vender mais, mas vender melhor, com rastreabilidade, conformidade e padrão industrial elevado”, alerta Nyegray.
Para o especialista, “o ganho não virá apenas da abertura de mercado, mas da capacidade de operar dentro de um ambiente regulatório mais sofisticado do que aquele enfrentado em muitos mercados tradicionais”.
Resiliência como vantagem competitiva
Nyegray conclui sua análise com uma reflexão sobre o novo paradigma competitivo da indústria de alimentos. “Num mundo em que a geopolítica entrou de vez no custo industrial, a empresa vencedora não será a que comprar mais barato em tempos normais, mas a que continuar operando com menos disrupção quando o ambiente externo se deteriorar”, afirma.
Para os decisores da indústria de alimentos e bebidas, a mensagem é clara: a instabilidade geopolítica não é mais um risco periférico, mas uma variável estrutural que exige gestão ativa, diversificação estratégica e capacidade de adaptação. As oportunidades existem, mas pertencem às empresas que souberem transformar vulnerabilidade em resiliência e crise em aprendizado competitivo.
Congresso Fispal Tec debate a geopolítica das cadeias alimentares
A instabilidade geopolítica global deixou de ser um tema de política externa para se tornar uma variável direta nos custos e nas decisões operacionais da indústria de alimentos. Essa foi a mensagem central da palestra “Geopolítica das Cadeias Alimentares: O Novo Tabuleiro Global”, apresentada por João Alfredo Nyegray, professor da FAE e da PUC-PR e doutor em internacionalização e estratégia, um panorama de riscos e oportunidades que fez parte da programação do Congresso Fispal Tec – o encontro aconteceu de 16 a 18 de junho, no São Paulo Expo.
Entre os pontos de preocupação, Nyegray destacou a ausência de instrumentos para regular a oferta global de fertilizantes, como acontece, por exemplo, com o petróleo. “Não há nenhum mecanismo global coordenado para pensar a oferta de fertilizantes. Qualquer choque na cadeia afeta toda e qualquer cultura que dependa desse insumo”, alertou.
Diante do cenário de instabilidade geopolítica, o especialista ressaltou o paradoxo brasileiro. “O Brasil reúne condições raras, como clima favorável, terra e água abundantes, capacidade de múltiplas safras e posicionamento neutro perante grandes blocos econômicos, mas ainda não transforma esses ativos em estratégia. É um trunfo que, sem estratégia, se torna insuficiente”, explicou.
Já para as empresas, Nyegray deixa a mensagem de que passem a considerar a geopolítica um fator de decisões estratégicas. “A pergunta não é se esse tema vai interferir na sua empresa. Ele já está interferindo. A pergunta é se você está apenas reagindo ou se está se antecipando.”