Após anos de domínio do iFood, o marketplace de alimentação encara novos concorrentes, como a gigante Keeta, maior delivery do mundo que pertence à chinesa Meituan, e a 99Food, que já detém boa parte do mercado de mobilidade urbana.

O iFood teve o caminho livre nos últimos anos e aproveitou para crescer: são mais 400 mil estabelecimentos parceiros em 1.500 cidades do Brasil.

Em 2022, a Uber Eats saiu do país. No ano seguinte, a 99Food deixou de operar no delivery de comida, ficando apenas com o transporte individual. A Rappi seguiu operando, mas com menor presença que o concorrente iFood, que passou a ditar as regras do mercado.

Porém, em 2025, esse cenário mudou. A 99Food retomou sua operação em agosto de 2025 com um investimento de R$ 500 milhões, metade do valor anual anunciado para a plataforma pelo DiDi’s International Business Group, grupo chinês controlador da 99.

Na sequência, em dezembro do mesmo ano, a Keeta iniciou sua operação com um plano de investimento de R$ 5,6 bilhões até 2030. “O sucesso da Keeta vai depender muito de como esse dinheiro será investido. Não é uma concorrência fácil”, afirma Ricardo Longa, CEO do voa.delivery, em entrevista ao Food Connection.

O executivo falou sobre as mudanças no mercado e as melhores práticas para restaurantes aproveitarem a concorrência entre as plataformas e melhorar seu lucro. “A recente competição entre iFood, 99, Keeta e Rappi justifica o termo ‘guerra’”.

Leia a seguir a entrevista com Ricardo Longa, CEO do voa.delivery.

Você acredita que a chegada da Keeta pode mudar o mercado de delivery no Brasil?

O iFood sempre se inspirou no que a Meituam faz na China, tanto que a identidade visual e os aplicativos são muito parecidos – não posso afirmar quem influenciou quem. Mas a verdade é que a Keeta está chegando com uma tecnologia muito pesada, eles já fazem entregas com drones na China há muito tempo, e sim, eles podem revolucionar o nosso mercado.   

Eu acredito que para os restaurantes vai ser muito bom, mas não vai ser uma competição fácil para os chineses por vários aspectos. O iFood é uma empresa consolidada, com um time que performa muito bem: 6 mil profissionais extremamente alinhados, uma grande estrutura em Osasco, 180 milhões de entregas por mês.

Acredito que 1 bilhão de dólares não faz um time que o iFood tem da noite para o dia. Esse dinheiro pode evaporar em pouquíssimo tempo, talvez 6 meses, se considerar que eles precisam dar bonificações para atrair entregadores, cupons de descontos para os consumidores, tem que atrair os restaurantes, é muito investimento inicial. Se errar a mão nessa configuração, o dinheiro vai muito rápido.

Qual a vantagem dessa concorrência para os donos de restaurantes?

Quando existe concorrência, passa a ter uma certa padronização de benefícios e de retorno sobre o investimento. Eu não sugiro o restaurante assinar exclusividade com nenhum marketplace, por mais atrativo que possa parecer. Não é momento de se amarrar, porque não se sabe ao certo o que vai acontecer nos próximos dois anos. O interessante é dar espaço para os aplicativos concorrentes fazerem o trabalho deles e trazerem os clientes até os restaurantes.

O maior desafio das empresas que estão chegando será, sem dúvida, tirar os clientes de dentro do iFood. É uma marca muito forte, que está em todos os lugares e tem a fidelidade dos consumidores. E sem compradores, não adianta ter restaurantes e entregadores.

Qual o risco para o restaurante estar em muitos canais de venda ao mesmo tempo?

Um restaurante entrando em dois ou três aplicativos grandes, mais canais próprios, você acha que é um risco porque pode receber pedido demais, ter que lidar com plataformas e estratégias diferentes. Mas existe tecnologia para centralizar os pedidos. No voa.delivery temos nossa inteligência artificial embedada na plataforma, que observa as dezenas de variáveis dentro e fora do restaurante em tempo real e conduz para uma gestão mais assertiva.

Por exemplo, numa sexta-feira à noite, está chovendo muito na cidade. É difícil conseguir entregador, muitos desligam o aplicativo porque têm medo de pilotar na chuva. Por outro lado, ninguém quer sair de casa e pede comida. Aí o iFood está dando frete grátis, o raio de entrega está amplo e o tempo está baixo: são gatilhos para aumentar as vendas. Precisamos reconfigurar: tira o frete grátis, diminui raio de vendas e aumenta o tempo de entrega, ou seja, alinha para um melhor serviço. A mesma coisa ao contrário: em um dia de boas condições, a IA vai sugerir que você faça as configurações para entrar mais pedidos. Chamamos isso de delivery vivo, as suas variáveis devem sempre estar ajustadas de acordo com o momento.

O que o estabelecimento pode fazer para ganhar mais dentro da plataforma de delivery?

Os marketplaces tem dois planos. O plano que inclui a logística de entrega, onde 25 a 30% sobre a venda fica para a plataforma, e existe o plano sem logística, onde o restaurante tem que entregar por conta, e o custo gira em torno de 9 a 15% do valor da venda. Então existe uma economia grande em fazer a sua própria entrega. Claro que existe um custo, mas não chega nessa diferença.

O voa.delivery faz a intermediação do restaurante com os profissionais de entrega. E tem o benefício da multicanalidade. Então você vai vender por vários canais, ele pode estar em dois ou três marketplaces, e inclusive canais de vendas próprio, como cardápios digitais, telefone, Instagram, WhatsApp, e todas as entregas vão ser gerenciadas pela nossa tecnologia.

Se o estabelecimento tem 10 entregadores, nós fazemos o gerenciamento deles e, se acontecer o que chamamos de transbordo, der um pico de vendas, as entregas excedentes serão realizadas pelos nossos entregadores.