Por Desirêe F. Galvão*

Quando uma bandeja de carne chega à prateleira de um supermercado, boa parte da história daquele animal já aconteceu. Ele pode ter nascido em uma fazenda, passado por outra durante a recria, seguido para uma terceira na fase de engorda e, só então, chegado ao frigorífico que vendeu a carne ao varejista. Reconstruir esse percurso é justamente um dos grandes desafios para garantir que a produção não tenha relação com desmatamento.

Não é uma dificuldade abstrata. Em 2025, o Ministério Público Federal (MPF) divulgou resultados preliminares do monitoramento de fornecedores indiretos no Pará. Entre os animais analisados, 38% estavam em conformidade com os critérios avaliados, 27% apresentavam potencial não conformidade e outros 35% não tinham correspondência com o Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Um estudo publicado em 2024 na Environmental Research Letters, baseado em registros de movimentação de animais na Amazônia brasileira, ajuda a explicar a complexidade. Os pesquisadores Skidmore, Barrozo, Rausch e Gibbs identificaram relações comerciais numerosas e frequentemente pouco duradouras entre propriedades localizadas antes da fazenda fornecedora direta do frigorífico. Incluir esses elos no monitoramento aumenta significativamente o número de transações que precisam ser acompanhadas para reconstruir o percurso do animal.

A dificuldade de rastrear fornecedores indiretos, ou seja, as fazendas por onde o gado passou antes de chegar à última propriedade antes do frigorífico, não impede avanços na rastreabilidade. Conhecer até onde esse acompanhamento alcança, inclusive nos elos indiretos, continua sendo essencial. Mas há uma segunda pergunta igualmente importante: como o varejo pode fortalecer esse processo e estimular outros atores da cadeia a fazer o mesmo?

Algumas possibilidades passam justamente pela relação do varejo com as marcas que comercializa, com os consumidores que atende e com os fornecedores e produtores que estão antes dele na cadeia.

Marcas livres de desmatamento podem ganhar espaço

Uma primeira possibilidade está no próprio poder de escolha do supermercado. Antes que qualquer consumidor decida entre duas opções de carne, alguém já selecionou quais marcas e produtos poderiam chegar até a loja.

Há evidências de que critérios estabelecidos pelos compradores podem alterar comportamentos na cadeia. Em um estudo liderado pela pesquisadora Holly Gibbs sobre os acordos de desmatamento zero na Amazônia, publicado em 2016, os pesquisadores observaram que frigoríficos analisados no Pará passaram a evitar propriedades com desmatamento recente depois da implementação dos compromissos. Entre 56 fornecedores da JBS entrevistados, 85% disseram ter realizado o CAR para conseguir vender à empresa.

Neste estudo, há uma mensagem potencialmente importante para os supermercados: as condições estabelecidas pelo comprador podem gerar incentivos que chegam até a fazenda. O varejista poderia aplicar lógica semelhante ao escolher os frigoríficos e as marcas que abastecem as lojas. 

Ao selecionar frigoríficos e marcas, uma rede poderia considerar, por exemplo, qual percentual da carne comercializada possui rastreabilidade desde o nascimento do animal, quais empresas monitoram fornecedores diretos e indiretos e quais submetem os controles a verificações independentes. Também poderia estabelecer metas para aumentar gradualmente a participação de produtos com maior controle de origem.

A mesma lógica pode alcançar as marcas próprias. Ao associar o próprio nome ao produto, o varejista ganha espaço para estabelecer critérios mais elevados de rastreabilidade e desmatamento zero (legal e ilegal) e testar modelos que, posteriormente, possam ser ampliados para outras linhas.

Não se trata necessariamente de retirar imediatamente todas as alternativas que ainda não atingiram o padrão mais alto. Uma possibilidade é criar incentivos para que marcas com controles mais robustos aumentem participação e visibilidade, enquanto outras recebam sinais claros sobre o padrão que precisarão alcançar.

O consumidor precisa conseguir enxergar a diferença

Escolher produtos com melhores mecanismos de rastreabilidade é apenas parte da estratégia. O varejo também decide como essas mercadorias chegam ao consumidor. Imagine duas carnes semelhantes lado a lado. Uma delas permite conhecer o ciclo de vida do animal e possui mecanismos de verificação que asseguram critérios de desmatamento zero, tanto legal quanto ilegal. A outra não oferece o mesmo nível de informação. Elas precisam necessariamente receber o mesmo destaque no ponto de venda?

Produtos com maior controle de origem poderiam receber identificação específica nas lojas, aparecer com destaque no comércio eletrônico ou integrar campanhas sobre rastreabilidade. O varejista também pode explicar de maneira acessível o que significa conhecer a origem da carne e quais critérios estão por trás de uma alegação de desmatamento zero.

Naturalmente, comunicar um atributo ambiental exige cuidado. Dizer que uma carne é “livre de desmatamento” precisa estar associado a critérios claros e mecanismos capazes de comprovar essa afirmação. Quando essa verificação existe, a comunicação ajuda a transformar uma característica da cadeia produtiva em informação acessível para a decisão de compra.

No artigo anterior desta coluna, “Um super-herói: o consumidor sustentável”, discutimos o poder de escolha de quem compra. Esse poder continua existindo. Mas há uma escolha anterior à do consumidor. O supermercado já decidiu quais produtos chegarão à loja, quais receberão destaque e quais informações estarão disponíveis sobre eles. E assim como o consumidor, o varejo também envia sinais ao mercado.

E esses sinais podem ser medidos. Ao acompanhar se conteúdos sobre rastreabilidade e desmatamento zero aumentam o interesse, os acessos ou as vendas de produtos com maior controle de origem, o supermercado consegue avaliar se a informação influencia a decisão de compra. Os resultados podem orientar a estratégia comercial e incentivar a ampliação da oferta desses produtos.

Fornecedores e produtores também respondem a incentivos

A terceira frente está na relação com quem abastece o varejo. As redes podem estabelecer critérios claros para frigoríficos sobre desmatamento zero, rastreabilidade, fornecedores diretos e indiretos, auditoria e transparência. Mas o compromisso formal é apenas o começo. Diálogo, planos de ação, prazos e acompanhamento dos resultados ajudam a transformar exigências em mudanças concretas, com consequências progressivas quando os problemas persistirem.

Os dados do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne reforçam a importância da verificação. No segundo ciclo unificado, divulgado pelo MPF em 2025 e referente às compras de 2022, as auditorias independentes contratadas por frigoríficos signatários identificaram 4,51% de irregularidades, contra 52,3% nas análises automáticas das empresas que não contrataram auditoria. As auditorias não resolvem sozinhas os desafios da cadeia, especialmente entre fornecedores indiretos, mas mostram a importância de acompanhar a implementação dos compromissos.

Como a rastreabilidade depende da integração de dados e da atuação de produtores, frigoríficos e poder público, o varejo não consegue avançar sozinho. A colaboração e o investimento podem ajudar nesse processo. Isso inclui apoiar iniciativas setoriais, projetos de rastreabilidade, capacitação e ferramentas de monitoramento que ajudem fornecedores a alcançar os padrões exigidos. 

Da rastreabilidade à influência

A transformação da cadeia da carne dificilmente virá de um único ator. O varejo ocupa, porém, uma posição particular entre quem produz e quem consome. Pode favorecer marcas com maior controle de origem e tornar essas diferenças visíveis para o consumidor. Também pode usar contratos, diálogo, acompanhamento e investimento para incentivar avanços entre os fornecedores. 

É justamente essa capacidade de mobilização que o Radar Verde passou a observar de maneira mais estruturada em 2026. Além de perguntar quanto da cadeia está efetivamente sob controle, o indicador passou a olhar para o grau de engajamento dos varejistas com marcas, consumidores e fornecedores em torno do desmatamento zero na cadeia da carne brasileira.

A rastreabilidade completa da pecuária brasileira continua sendo um desafio. Mas o varejo não precisa esperar que todas as peças estejam prontas para começar a movimentá-las. Olhar do supermercado para trás significa reconhecer que, além de identificar onde estão as lacunas da cadeia, também é possível perguntar quais decisões comerciais podem ajudar a reduzi-las.

*Desirêe F. Galvão é mato-grossense, pós-graduada em Práticas Contemporâneas do Jornalismo, mestre em Economia e Gestão do Ambiente e analista técnica do Radar Verde.