Por Camila Trigueiro*

A Coreia do Sul tem muito a oferecer em tecnologia, criatividade, cultura e consumo. E é especificamente sobre o consumo de carne bovina pela Coreia do Sul que te convido a fazer uma análise neste artigo.

Lembro de ter começado a me interessar pela cultura sul-coreana em 2020. Logo depois comecei a ler a obra As coisas que você só vê quando desacelera, do autor sul-coreano Haemin Sunim, e a simplicidade na forma de olhar a vida, nesse livro, me encantou.

Começava a descobrir que havia muito mais naquela cultura que despertava minha atenção. A partir daí, mergulhei em curiosidade sobre a cultura da Coreia do Sul: gastronomia, tecnologia, literatura, k-pop, doramas e skincare. Parecia, de fato, um universo muito criativo e curioso de conhecer.

Além de ser a casa dos gigantes da indústria (como Samsung e Hyundai), a Coreia do Sul também tem outros sucessos, como a boyband BTS, o filme vencedor do Oscar “Parasita”, a série mais assistida durante a pandemia e mundialmente conhecida “Round 6”, e a talentosa ganhadora do Nobel de Literatura em 2024, Han Kang. 

A partir de agora, para entender o consumo de carne bovina na Coreia do Sul, vamos analisar os dados de mercado e as preferências do consumidor.

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Potencial de consumo de carne bovina da Coreia do Sul

Em 2025, o Brasil exportou 967 toneladas de carne bovina para a Coreia do Sul, de acordo com dados da ABIEC, embora o mercado sul-coreano ainda não estivesse oficialmente aberto à carne bovina brasileira.

Esse volume foi viabilizado por meio da chamada “exportação por conta e risco”, modalidade que permite o envio da carga mesmo sem a conclusão dos acordos sanitários e comerciais necessários. Nessa situação, caso as autoridades do país importador não autorizem a internalização da mercadoria, todos os custos e riscos da operação ficam sob responsabilidade da empresa exportadora.

Diante do volume reduzido em comparação aos principais mercados compradores, é provável que essas remessas tenham correspondido a testes, amostras comerciais ou processos de avaliação sanitária, etapas que podem fazer parte das negociações para a abertura de novos mercados.

O potencial desse mercado torna-se mais evidente quando se observa o nível de consumo de carne bovina na Coreia do Sul. O consumidor sul-coreano consome 2,5 vezes mais carne bovina que o consumidor japonês e quase quatro vezes mais que o consumidor chinês, atualmente o principal destino da carne bovina brasileira (SFCO, 2026).

Apesar dessa elevada demanda, o abastecimento sul-coreano depende significativamente de fornecedores estrangeiros e apresenta uma concentração histórica das importações em duas principais origens (Estados Unidos e Austrália). A participação norte-americana nesse mercado ganhou força especialmente após a atualização do Acordo de Livre Comércio entre Coreia do Sul e Estados Unidos (KORUS FTA), em 2012.

Desde então, as importações de carne bovina dos Estados Unidos cresceram continuamente, alcançando, em 2012, um aumento de 23,2% em relação ao ano anterior à entrada em vigor do acordo, em 2011. Em 2017, a carne bovina norte-americana já representava 46,8% do total das importações sul-coreanas.

A consolidação dos Estados Unidos como fornecedor também esteve associada à percepção dos consumidores sul-coreanos sobre a carne norte-americana. Em 2022, a Coreia do Sul foi o principal destino dos produtos de carne bovina dos Estados Unidos e, segundo pesquisa realizada pela Gallup em dezembro daquele ano, a confiança dos consumidores sul-coreanos nesse produto havia aumentado para 68%, ante 38% dez anos antes.

Esse dado ajuda a evidenciar que a presença de um fornecedor no mercado não depende exclusivamente da capacidade de exportação, mas também da construção de confiança e reconhecimento junto aos consumidores.

Nesse cenário, embora a Coreia do Sul invista no desenvolvimento de sua pecuária doméstica, as importações continuam desempenhando papel fundamental no abastecimento do país. Em 2022, a carne bovina importada correspondia a 64% do consumo sul-coreano. Naquele ano, os Estados Unidos respondiam por 58% das importações, seguidos pela Austrália, com 33%, e pela Nova Zelândia e pelo Canadá, ambos com 4%.

Assim, o mercado sul-coreano combina elevada demanda, dependência de fornecedores internacionais e forte presença de países que já construíram reconhecimento entre os consumidores, elementos que ajudam a dimensionar tanto a oportunidade quanto os desafios para a entrada da carne bovina brasileira.

Preferências da Coreia do Sul sobre a carne bovina

Uma pesquisa realizada em 2025 avaliou como consumidores sul-coreanos percebem alimentos de diferentes países de origem, incluindo carne bovina. O estudo comparou produtos provenientes de 13 países, entre eles Brasil, Austrália, Estados Unidos e Coreia do Sul, e analisou dois aspectos principais: a intenção de compra e a disposição dos consumidores a pagar por esses produtos.

Os resultados mostraram que, independentemente do nível de valorização dos produtos nacionais, os alimentos de origem sul-coreana apresentaram as maiores intenções de compra e disposição a pagar entre os consumidores pesquisados. Ou seja, o consumidor sul-coreano atribui grande importância à carne bovina doméstica e qualidade, sabor e segurança são os critérios mais considerados na escolha da carne nas pesquisas locais.

Entretanto, a preferência pelo produto doméstico não elimina a demanda por carne importada. Nas pesquisas, o preço constitui um importante fator de diferenciação, e evidências recentes indicam que o aumento do preço do Hanwoo (carne originalmente sul-coreana) tem levado consumidores a substituir parte das compras de carne doméstica por produtos importados, mantendo relativamente estável o volume total de carne bovina adquirida.

Em 2025, a Coreia do Sul importou 468,1 mil toneladas de carne bovina, das quais aproximadamente 47% tiveram origem nos Estados Unidos, segundo levantamento do Comitê de Gestão do Fundo de Carne Bovina da Coreia (CGFCBC).

Rastreabilidade e origem também têm valor para o consumidor

A origem e a rastreabilidade também desempenham um papel relevante na decisão de compra do consumidor sul-coreano. Um estudo publicado em 2024 analisou, por meio de um experimento de escolha, a preferência dos consumidores por atributos relacionados à origem e à rastreabilidade de produtos de origem animal, incluindo a carne bovina.

No caso da carne bovina, os consumidores apresentaram uma disposição a pagar pela rastreabilidade equivalente a aproximadamente 92% a 97% daquela associada ao atributo que comprovasse a origem doméstica da carne bovina que adquiriam, evidenciando o valor atribuído à possibilidade de conhecer a procedência e acompanhar a trajetória do produto.

Embora esse resultado não signifique necessariamente que os consumidores estejam utilizando a rastreabilidade para avaliar aspectos socioambientais da produção, ele demonstra que informações sobre a origem e a trajetória da carne podem funcionar como um elemento de confiança e segurança na relação entre consumidor e produto.

Nesse sentido, a rastreabilidade pode representar um diferencial estratégico para o Brasil na busca por acesso ao mercado sul-coreano. Além de atender às exigências sanitárias e comerciais, investir em sistemas capazes de comprovar a origem e a trajetória da carne brasileira pode contribuir para aumentar a transparência do produto e fortalecer a confiança do consumidor, especialmente em um mercado no qual a origem do produto é um dos atributos considerados importantes no momento da compra.

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O Brasil está tentando se inserir no mercado sul-coreano

O mercado sul-coreano é objeto do interesse brasileiro há anos, mas somente entre 2025 e 2026, com a instabilidade comercial diante do tarifaço norte-americano, da restrição europeia e das cotas de importação da China, é que o governo brasileiro parece ter intensificado o engajamento na tentativa de conquistar esse mercado.

Como resultado desse engajamento, estava prevista uma visita técnica da Coreia do Sul para realizar uma auditoria sobre a carne bovina brasileira em maio de 2026; no entanto, a visita foi cancelada.

Contudo, em agosto, o país iniciou uma missão técnica no Brasil para avaliar a possibilidade de importação de carne bovina. A missão tinha o objetivo de analisar o sistema sanitário brasileiro e os procedimentos de inspeção da produção e exportação de carne bovina in natura, mas não há expectativas de abertura desse mercado a curto prazo.

Diversificação de mercado

A China permaneceu como o principal destino das exportações brasileiras de carne bovina em 2025, concentrando 47,3% do volume exportado (2,14 milhões de toneladas equivalentes de carcaça – TEC) e 49,4% do faturamento (US$ 8,9 bilhões). Em seguida, aparecem os Estados Unidos, responsáveis por 8,8% do volume e 9,1% da receita, e a União Europeia, com 5,1% do volume e 5,9% do faturamento.

Outros mercados relevantes incluem Chile, Rússia, México, Filipinas, Egito, Hong Kong e Arábia Saudita, embora cada um represente menos de 5% das exportações. Em conjunto, os países do Oriente Médio e Norte da África (Egito e Arábia Saudita) responderam por cerca de 4,6% do volume e 4,0% do faturamento das exportações brasileiras de carne bovina, de acordo com a ABIEC.

Esses resultados evidenciam a forte dependência do Brasil em relação ao mercado chinês, que absorve praticamente metade das exportações do setor, ao mesmo tempo em que demonstram uma diversificação dos destinos internacionais, com participação crescente de mercados estratégicos na Ásia, Américas, Europa e Oriente Médio.

Nesse contexto, o Brasil também tem buscado ampliar sua presença em mercados ainda pouco explorados, por meio de negociações sanitárias, missões técnicas, acordos comerciais e esforços de abertura de novos destinos.

A tentativa de acesso ao mercado sul-coreano constitui um exemplo dessa estratégia, somando-se a outras iniciativas voltadas à ampliação da presença da carne bovina brasileira em diferentes regiões. A diversificação dos destinos pode contribuir para reduzir a concentração das exportações em um único mercado e ampliar as alternativas de comercialização do produto brasileiro diante de mudanças nas condições comerciais, sanitárias, tarifárias ou de demanda dos principais compradores internacionais.

Como o Brasil pode conquistar a Coreia do Sul?

A entrada da carne bovina brasileira no mercado sul-coreano não depende apenas da conclusão das negociações sanitárias e da habilitação dos frigoríficos. Em um mercado em que origem, qualidade, segurança e confiança são atributos relevantes para o consumidor, o Brasil também precisará demonstrar, de forma clara e verificável, de onde vem a carne e sob quais condições ela foi produzida. Sistemas de rastreabilidade contribuem para a construção da confiança dos consumidores quanto à segurança dos produtos.

Para o Brasil, essa oportunidade poderia ser ampliada pela incorporação de critérios socioambientais verificáveis à rastreabilidade da cadeia bovina. Mais do que informar onde o animal nasceu ou foi abatido, seria possível demonstrar que os fornecedores dos frigoríficos estão associados a propriedades que cumprem requisitos de regularidade ambiental e fundiária e que não apresentam evidências de desmatamento ilegal, sobreposição com áreas protegidas ou outras irregularidades socioambientais relevantes.

Dessa forma, a informação de origem poderia evoluir para uma espécie de histórico de conformidade do produto, permitindo que a carne brasileira seja acompanhada desde a propriedade fornecedora até o frigorífico e, posteriormente, até o mercado consumidor. Essa estratégia poderia contribuir para diferenciar a carne brasileira em um mercado em que a reputação da origem e a confiança na qualidade do produto são relevantes. 

Nesse processo, a reputação do Brasil como produtor de carne bovina poderá ser tão importante quanto a capacidade de fornecimento em grandes volumes. Os Estados Unidos e a Austrália já construíram reconhecimento no mercado sul-coreano, e a entrada de um novo fornecedor exigirá não apenas a comprovação das condições sanitárias, mas também a construção de confiança junto a importadores, varejistas e consumidores.

Para deixar a leitura mais leve e visual, também preparamos um resumo deste artigo com ilustrações, geradas por IA, inspiradas na linguagem das webtoons, como True Beauty, e no universo divertido do programa sul-coreano Running Man.

*Camila Trigueiro é pesquisadora do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Radar Verde.