*Por André Aquino

Tem uma coisa que todo dono de restaurante sabe: a cozinha não perdoa. Pedido errado, desperdício fora de controle, funcionário que faltou na sexta à noite, cliente que reclama no Google às 23h. O ritmo é intenso, a margem é apertada e a exigência só cresce. E é exatamente nesse cenário que a inteligência artificial começou a aparecer — não como um robô futurista saído de ficção científica, mas como uma ferramenta silenciosa que vai resolvendo problema por problema, setor por setor.

Se você ainda acha que IA é coisa de startup de tecnologia ou de empresa multinacional, vale dar uma olhada no que está acontecendo bem aqui, no foodservice brasileiro e no mundo. A conversa já mudou de “será que vai chegar até nós?” para “quem ainda não adotou está ficando para trás”.

Na cozinha: do desperdício à criatividade

Vamos começar pelo coração do negócio. Dentro da cozinha, a IA já atua em pelo menos duas frentes bem distintas: a operacional e a criativa.

Do lado operacional, sistemas inteligentes conseguem calcular quantos pratos saem de cada ingrediente, cruzar esse dado com o histórico de pedidos e sugerir o estoque ideal para cada dia da semana. Nada de comprar tomate para 200 pessoas numa segunda-feira de chuva. Esse tipo de previsão, que antes dependia do feeling do gerente experiente, hoje é feito com dados reais — e com uma precisão que reduz o desperdício de forma considerável.

O Mugaritz, um dos restaurantes mais respeitados do mundo, implementou um sistema de IA que combina aprendizado de máquina com dados sensoriais dos pratos e conseguiu reduzir em 25% o desperdício de ingredientes. Além disso, o tempo de desenvolvimento de novos pratos caiu 40%, porque os chefs passaram a ter sugestões concretas para explorar em vez de partir do zero.

Já no lado criativo, a coisa fica ainda mais interessante. Em Chicago, o chef Grant Achatz, do restaurante Next, criou um menu de nove etapas com a ajuda do ChatGPT. A IA gerou perfis de “chefs fictícios” com influências de nomes como Ferran Adrià e Jiro Ono, e a partir dessas referências sugeriu combinações que Achatz transformou em pratos reais. O resultado foi descrito como surpreendente — e o processo, como um exercício criativo genuíno.

Isso não significa que a IA vai substituir o talento do chef. Significa que ela pode ser uma espécie de sous chef intelectual: provocador, repleto de referências, disponível a qualquer hora. Quem define o que vai para o prato ainda é você.

No atendimento: o cliente nem percebe (e isso é bom)

Chatbots que respondem dúvidas, fazem reservas e sugerem pratos com base no histórico do cliente. Totens de autoatendimento que personalizam pedidos e processam pagamentos sem fila. Sommeliers virtuais que recomendam o vinho certo para cada prato.

Esse último exemplo já é realidade no Brasil. A empresa paulista Atena.ai desenvolveu um sistema que recomenda vinhos com base no prato escolhido pelo cliente, trazendo informações sobre rótulo, safra e harmonização — o tipo de serviço que antes exigia um profissional especializado disponível em tempo integral.

O ponto mais importante aqui é a personalização. Sistemas de IA conseguem aprender com o comportamento de cada cliente: o que ele pede, o que evita, quando costuma visitar, o que avaliou bem. Com isso, é possível oferecer uma experiência que parece feita sob medida — porque, de certa forma, é.

E sim, um a cada quatro restaurantes no Brasil já usou IA em algum momento, segundo dados da Abrasel. O número é de 2024, e a tendência é que tenha crescido desde então.

No marketing: conteúdo, dados e timing

Essa talvez seja a área onde a adoção é mais rápida — e mais acessível. Ferramentas como o ChatGPT, o Jasper ou o próprio Google já facilitam a criação de posts para redes sociais, respostas para avaliações no Google Maps, descrições de pratos e campanhas sazonais. O que antes tomava horas de um profissional de comunicação, hoje pode ser esboçado em minutos e refinado pelo responsável do restaurante.

Mas além da criação de conteúdo, a IA está transformando a forma como o dinheiro em publicidade é gasto. Plataformas como o Google Ads e o Meta Ads já usam inteligência artificial para otimizar campanhas em tempo real — ajustando lances, públicos e criativos com base nos resultados, de forma automática. Isso significa que um restaurante pequeno, com um orçamento modesto, pode competir de forma muito mais eficiente do que competia há cinco anos.

Há também o monitoramento de reputação online. Ferramentas de IA leem avaliações em plataformas como Google, TripAdvisor e iFood, identificam padrões de reclamação e alertam o gestor antes que um problema vire crise.

Na gestão: previsão de demanda e escala de equipe

Um dos maiores desafios de qualquer operação em gastronomia é prever o movimento. Escalar uma equipe para uma sexta à noite que acabou fraca custa caro. Aparecer com pouca gente num domingo que virou lotado é ainda pior.

Sistemas de IA analisam dados históricos, cruzam com variáveis como clima, feriados, eventos locais e até tendências nas redes sociais para estimar quantos clientes devem aparecer em determinado dia e horário. Com isso, fica muito mais fácil fazer uma escala de pessoal que equilibre custos e qualidade de serviço.

O que vem por aí

A nutrição personalizada é uma das fronteiras mais promissoras. Em 2026, já começam a surgir sistemas que integram o comportamento alimentar individual do consumidor com o cardápio do restaurante — sugerindo opções adequadas para restrições, preferências e até objetivos de saúde. Para quem trabalha com público mais exigente ou segmentos específicos, isso pode ser um diferencial enorme.

Outra tendência forte é a visão computacional na cozinha. Câmeras com IA já conseguem monitorar a qualidade dos alimentos, identificar contaminações visuais e garantir padronização nos pratos antes de sair para a mesa. Parece tecnologia de ponta — e é. Mas os custos têm caído rapidamente.

Mas afinal, por onde começar?

A boa notícia é que você não precisa implementar tudo de uma vez. A maioria das ferramentas disponíveis hoje é acessível, funciona na nuvem e não exige uma equipe de TI. Um chatbot para responder mensagens no WhatsApp, um sistema de gestão de estoque com previsão de demanda, ou simplesmente usar o ChatGPT para criar os posts da semana — cada pequeno passo já é adoção.

A IA não vai tirar a alma do seu restaurante. O ambiente, a equipe, a receita guardada a sete chaves, a forma como você recebe o cliente — isso continua sendo seu. O que ela oferece é mais tempo, menos desperdício e decisões mais inteligentes. E para quem está na cozinha todos os dias, isso vale muito.

*André Aquino é Chef e Professor, e Embaixador da Fispal Food Service. Graduado em Publicidade e Propaganda, Mestre em Comunicação, pós graduado em Gestão de Pessoas, pós graduado em Educação e Sociologia e pós em Gestão de Negócios. Atualmente atua no grupo GPGC (Aqui!Marketing) na área de atendimento e consultoria em marketing, além de ter trabalhando em grandes em empresas como AmBev e Americanas.com no gerenciamento de marketing e vendas. Lecionou na FAAP, ETEP e atualmente Anhanguera, em temas como empreendedorismo, gestão de pessoas, T&D e métricas. Criador e idealizador do Blog Cozinha pra Machos.

Visite o Chef André Aquino na Fispal Food Service 2026.

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