O consumo de alimentos é resultado direto de fatores econômicos, sociais e comportamentais. Nos últimos anos, dois movimentos distintos, mas convergentes em seus efeitos, passaram a influenciar esse consumo de forma relevante: o crescimento das apostas digitais e a popularização dos medicamentos da classe GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.

Enquanto as apostas online disputam diretamente o orçamento familiar, os medicamentos GLP-1 atuam reduzindo o apetite e o volume de alimentos ingeridos. Juntos, esses fenômenos ajudam a explicar mudanças recentes no comportamento de compra e no mix de consumo alimentar, tanto no Brasil quanto em mercados mais maduros.

Apostas digitais e o impacto no orçamento alimentar

O avanço das plataformas de apostas online no Brasil deixou de ser apenas uma tendência do entretenimento digital e passou a exercer impacto direto no orçamento das famílias. Estudos de mercado e reportagens baseadas em dados de institutos de pesquisa indicam que uma parcela relevante dos recursos antes destinados à alimentação vem sendo redirecionada para apostas.

Levantamentos apontam que, em determinados períodos, até 13% do orçamento originalmente reservado para alimentos foi utilizado em apostas digitais, com maior incidência entre famílias de menor renda. Esse movimento não significa necessariamente menos pessoas se alimentando, mas uma reorganização do orçamento disponível, afetando o volume comprado, a frequência de reposição e a escolha por produtos de menor valor agregado.

Para o varejo e a indústria de alimentos, esse fenômeno se traduz em maior sensibilidade a preço, redução de compras por impulso e pressão sobre categorias que dependem de consumo recorrente. Parte da desaceleração observada em alguns segmentos não está ligada apenas à inflação ou renda, mas à competição direta com novos hábitos digitais que disputam o mesmo orçamento.

Medicamentos GLP-1 e a transformação do consumo alimentar

Em paralelo às mudanças de natureza econômica, um segundo vetor começa a impactar o consumo de alimentos por uma via completamente diferente: a fisiológica.

Os medicamentos agonistas do GLP-1, inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2 e hoje amplamente utilizados para controle de peso, atuam diretamente nos mecanismos de saciedade. O resultado é a redução do apetite, do volume ingerido e, consequentemente, da quantidade de alimentos adquiridos.

Estudos conduzidos por universidades como a Cornell University mostram que domicílios com usuários de GLP-1 apresentam redução média nos gastos com supermercados, especialmente em categorias de alta densidade calórica, como snacks, doces e produtos ultraprocessados. Em contrapartida, observa-se maior interesse por alimentos ricos em proteína, opções funcionais e porções menores.

Relatórios setoriais internacionais indicam que, em mercados mais maduros, esses medicamentos já começam a impactar categorias tradicionais da indústria de alimentos. No Brasil, embora o efeito ainda seja incipiente, os sinais de mudança no mix de consumo já merecem atenção estratégica.

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Dois fenômenos distintos, um efeito convergente

Apesar de partirem de origens completamente diferentes, apostas digitais e medicamentos GLP-1 convergem em seus efeitos sobre o consumo de alimentos.

As apostas digitais atuam reduzindo o orçamento disponível para alimentação, enquanto os GLP-1 reduzem a necessidade fisiológica de consumo. O resultado é um consumidor que compra menos, avalia mais o custo-benefício e passa a fazer escolhas mais seletivas.

Para a indústria e o varejo, isso representa um desafio estrutural, modelos historicamente baseados em volume e frequência precisam ser revistos diante de um consumidor mais contido, seja por restrição financeira ou por mudança de hábitos.

Implicações para a indústria de alimentos

Esses movimentos reforçam a necessidade de adaptação do setor em diferentes frentes:

  • revisão de portfólio, com foco em produtos alinhados a saúde, funcionalidade e controle de porção;
  • maior atenção ao valor percebido pelo consumidor, em um cenário de menor volume;
  • estratégias comerciais menos dependentes de promoções agressivas por volume;
  • uso mais intenso de inteligência de mercado para compreender mudanças de comportamento além dos indicadores tradicionais.

O consumo de alimentos está sendo influenciado simultaneamente por forças econômicas e biomédicas. As apostas digitais alteram o destino do dinheiro, enquanto os medicamentos GLP-1 transformam a relação das pessoas com a comida.

Para profissionais da indústria de alimentos, varejo e cadeia de abastecimento, compreender esses vetores é fundamental para antecipar tendências, ajustar estratégias e manter competitividade em um mercado cada vez mais complexo.

Essas mudanças não são projeções futuras. Elas já estão em curso e tendem a se intensificar nos próximos anos.