A inteligência artificial deixou de ser uma promessa futurista para se tornar realidade concreta nas operações industriais brasileiras.

A pesquisa “O poder da IA no mercado de alimentos e bebidas”, realizada em 2025 pela Fispal Tecnologia em parceria com o Food Connection, revelou que 29% da indústria alimentícia brasileira utiliza estratégias de automação baseadas em IA ou robótica.

A adesão a tecnologia está crescendo: 82% revelaram que planejam investir em inteligência artificial e automação nos próximos dois a três anos, com destaque para chatbots de atendimento ao cliente e sistemas de automação industrial.

O tema foi debatido no Congresso Fispal Tec 2026, onde executivos de grandes corporações compartilharam experiências práticas que demonstram como a tecnologia está gerando ganhos expressivos de produtividade e eficiência operacional.

O painel reuniu Fabio Misawa, diretor operacional geral da Ajinomoto do Brasil; Leonardo Andrade, diretor de Transformação Digital da Cargill Food América Latina; Paulo Bandel, engenheiro industrial e diretor de planejamento estratégico da Whirlpool América Latina; e Jorge Cerezo, partner and co-leader of Latam Operations practice at McKinsey & Company, que mediou as discussões.

Base da transformação: cultura e sistemas de gestão robustos

A implementação bem-sucedida de inteligência artificial depende fundamentalmente de bases sólidas construídas ao longo de anos.

Leonardo Andrade, da Cargill, enfatizou que a jornada começou há uma década, com atenção especial à cultura da empresa. “Cultura se cria, se transforma e dá sustentabilidade ao processo. E as pessoas fazem parte da cultura.”

O executivo destacou que a implementação de sistemas como Lean Manufacturing e TPM (Total Productive Maintenance) foi essencial para criar a disciplina necessária. “Se a ferramenta digital não tem uma sustentabilidade cultural, processos robustos por trás, você acaba perdendo o que chamamos de momentum (impulso)”, alertou Andrade.

Paulo Bandel, da Whirlpool, compartilhou experiência similar. A empresa fundamentou sua jornada no World Class Manufacturing (WCM) e em um sistema de gestão de performance desenvolvido com apoio da McKinsey. “São dois sistemas complementares que foram desenvolvidos ao longo dos últimos 10 anos, junto com outro elemento muito importante, que nós chamamos de Intelligent Factories.”

Para Fabio Misawa, da Ajinomoto, o trabalho que precede a implementação da tecnologia é decisivo para o seu sucesso. “Antes de falar de implementação de sistema, de uma máquina ou de inteligência artificial, você precisa saber se as pessoas estão preparadas. A cultura, a matriz de habilidade, a manutenção preventiva, o mapeamento de processo, tudo isso tem que estar estabelecido para realmente saber qual é a sua dor.”

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Estruturação de dados: o alicerce da Inteligência Artificial

A centralização e contextualização de dados emergiram como elementos críticos para o processo de implementação da IA.

Leonardo Andrade explicou que a Cargill passou por um processo rigoroso de estruturação. “O valor dos dados passa por procedimentos digitalizados, centralização e contextualização de dados”, detalhou.

Paulo Bandel, da Whirlpool, confirmou que a estruturação de dados desenvolvida ao longo dos anos permite agora transformar casos de uso em soluções escaláveis rapidamente.

Outro aspecto fundamental mencionado foi a importância de assessments de maturidade. “Empresas grandes têm parques fabris distintos, com idades e tecnologias distintas. Então você tem que saber qual é o remédio de cada dor”, observou Andrade, destacando a necessidade de mapear a maturidade dos ativos antes de implementar soluções.

Identificação de perdas: o primeiro passo para resultados

Uma pesquisa da McKinsey, trazida por Jorge Cerezo, revelou que o principal fator de sucesso na implementação de IA em operações não é investimento ou tecnologia, mas sim a identificação correta das principais perdas e dores operacionais.

Fabio Misawa trouxe a filosofia do fundador do Waze, Uri Levine, para ilustrar o ponto. “Ele fala: apaixone-se pelo problema e não pela solução. Hoje, nessa hype, tudo é IA. Mas, na verdade, preciso dar um passo atrás e saber qual é realmente o meu problema, o que eu preciso resolver para mim e para o meu cliente.”

O executivo da Ajinomoto explicou como a IA permitiu enxergar o processo de forma totalmente diferente. Um caso prático ilustrou o impacto: engenheiros que antes atribuíam perdas à matéria-prima descobriram, através da análise de milhares de variáveis com IA, que a angulação da máquina causava maior variação. “Assim, com uma sugestão em qual parâmetro da máquina e do processo deveria rodar, conseguimos reduzir essa perda”, comemorou Misawa.

Aplicações práticas da IA: da manutenção à jornada do consumidor

As aplicações de IA apresentadas pelos executivos demonstraram grande versatilidade.

Na Ajinomoto, a tecnologia está sendo utilizada para monitorar processos manuais através de imagem. “Utilizando imagem conectada com uma IA, eu já consigo fazer uma análise do processo manual, sabendo online 24 horas se a pessoa está executando de forma correta ou não”, explicou Misawa.

Na área de manutenção, a Ajinomoto implementou um sistema baseado em IA que acessa todos os manuais dos equipamentos. Ao descrever um problema, a IA já sugere em quais pontos do equipamento tem que fazer a intervenção, baseado no manual”, descreveu Misawa, acrescentando que o sistema já gerou ganhos significativos em horas de equipamento parado.

Paulo Bandel, da Whirlpool, destacou uma aplicação voltada para a jornada do consumidor. “Passamos a utilizar a IA para quando o consumidor liga no call center para fazer uma observação ou uma reclamação. O processo anterior tinha um tempo de espera que poderia levar semanas ou até meses”, relatou. Hoje, há leitura automática do áudio que conecta com banco de dados e prioriza automaticamente as ordens de serviço, com retroalimentação direta no processo produtivo.

Outro case apresentado por Bandel revelou que a Whirlpool conseguiu desenvolver um novo SKU em apenas 39 dias, comparado aos 2 a 3 anos que projetos similares demandavam anteriormente. “Isso é fruto do que a gente vem desenvolvendo não somente com inteligência artificial, mas ela tem sido um alavancador de resultados”, afirmou.

Na engenharia industrial, a empresa está utilizando copilots para elaborar FMEAs, especificações de moldes e ferramentas, reduzindo drasticamente o tempo de resposta. “Tudo isso visa diminuir o tempo de resposta no dia a dia de produção, mas também, um outro aspecto muito importante, que é reduzir o tempo de resposta ao mercado”, explicou Bandel.

Democratização da IA e desenvolvimento de pessoas

A democratização do conhecimento em IA emergiu como estratégia central para o sucesso da implementação da tecnologia nas empresas.

Leonardo Andrade anunciou que a Cargill lançou recentemente a primeira academia de criação de agentes da empresa. “A pessoa traz um problema, que geralmente é processual, e como um agente pode endereçar”, explicou.

Na Ajinomoto, a estratégia passa pela educação formal. Misawa descreveu a existência de uma oficina escola e da UTA (Universidade Tecnológica Ajinomoto), onde operadores passam por treinamentos que evoluíram de mecânica e elétrica para robótica, programação e, agora, IA. “Vamos promovendo essas pessoas conforme o processo vai evoluindo”, explicou.

Paulo Bandel compartilhou que a democratização na Whirlpool começou pela exemplaridade da liderança. “Antes de pensar em implementação na empresa, fiz uma autoavaliação, entendi que eu mesmo estou usando muito pouco. E aí passei a pesquisar, a utilizar e a ter maior produtividade sobre as minhas próprias rotinas”, revelou.

O executivo da Cargill enfatizou que a América Latina, e especialmente o Brasil, tem papel de incubadora de talentos na empresa. “O engenheiro brasileiro, latino-americano, tem uma coisa especial que é a criatividade. Ele não se fecha num processo robusto”, afirmou Andrade, acrescentando que pilotos de inovação são direcionados para equipes brasileiras.

O papel da liderança e visão de longo prazo

Para viabilizar investimentos em tecnologia, são necessários ajustes na governança corporativa. Fabio Misawa contou que os indicadores financeiros da empresa não aprovavam o payback e assim não era possível “aprovar o Capex e evoluir”. A solução foi aumentar o nível de aprovação e permitir que algumas tecnologias habilitadoras fossem aprovadas sem payback imediato.

Jorge Cerezo trouxe dados reveladores sobre diferenças culturais em relação a investimentos em tecnologia. Em 2023, enquanto executivos na Alemanha e Japão indicaram que o payback aceitável para projetos de tecnologia seria de 3,5 anos, na América Latina a resposta foi payback menor que um ano. A lição é que é preciso reconhecer a curva de aprendizado e ter paciência para atingir os resultados.

Nesse cenário, Bandel enfatizou a importância do patrocínio da alta liderança. “Sem esse patrocínio, a jornada se torna muito mais complexa”, afirmou, destacando que na Whirlpool há consciência de que “a IA não vai substituir os humanos, mas os humanos com IA vão substituir os humanos sem IA”.

Perspectivas para o futuro

Segundo o executivo da McKinsey, a região que menos cresceu em produtividade no mundo nos últimos 20 anos foi a América Latina. Cerezo acredita que “essa é a nossa oportunidade para fechar essa brecha”.

“Existe hoje nas companhias programas específicos de benchmark interno e externo muito rigorosos e a gente não faz isso muito bem no Brasil”, observou. Para ele, na era da IA é possível aprender muito entre diferentes indústrias, especialmente em áreas como logística, cultura e uso de dados.

Paulo Bandel concluiu com uma mensagem de urgência. “O bonde está passando e a gente precisa pegar esse bonde. Existe essa consciência dentro da nossa liderança”, afirmou o executivo da Whirlpool.

As experiências compartilhadas no painel mostram que a inteligência artificial está deixando de ser experimento para se tornar ferramenta essencial de competitividade. O sucesso, contudo, depende de fundamentos sólidos, identificação clara de problemas, investimento em pessoas e visão de longo prazo — elementos que as empresas líderes já estão colocando em prática com resultados mensuráveis.