*Martin Eckhardt, presidente da ABRASORVETE
Se você ainda acredita que o mercado de sorvetes se resume à tríade clássica — chocolate, creme e morango — é hora de recalibrar sua visão. O que vi recentemente na SIGEP, em Rimini (Itália), uma vitrine mundial do setor, confirma: em 2026, o sorvete deixa de ser apenas uma sobremesa para se tornar uma experiência sensorial completa. O consumidor não quer apenas “gelado”; ele quer textura, surpresa e uma narrativa a cada colherada.
O pistache, que dominou as vitrines nos últimos anos, não dá sinais de fadiga, mas ele evoluiu. A tendência agora é a extrema crocância. A grande estrela da temporada é a influência do famoso “Chocolate de Dubai”: uma combinação luxuosa de pistache com kadaif (massa finíssima e ultra crocante do Oriente Médio), avelã, caramelo e o toque sofisticado do coco bianco.
Para as indústrias brasileiras, o recado é claro: o diferencial competitivo em 2026 estará na capacidade de incorporar inclusões que mantenham a textura mesmo em temperaturas negativas. Criar contraste entre a cremosidade da base e a resistência da mordida é a chave do sucesso.
Outro destaque disruptivo é a quebra do óbvio. Misturas como manga com pimenta mostram que o paladar do consumidor está mais lúdico e aberto a contrastes entre o doce e o picante. Essa proposta transforma o produto em algo divertido, saindo da zona de conforto tradicional.
Simultaneamente, a indústria atingiu o “estado da arte” nos recheios zero açúcar. Saímos da fase do “produto de dieta” para entrar na era do sabor pleno. As linhas funcionais, sem lactose e sem glúten, deixaram de ser nicho para se tornarem obrigatórias no portfólio de quem deseja crescer, atendendo a um público que não abre mão da saúde, mas exige prazer.
Apesar das inovações internacionais, o brasileiro mantém traços culturais fortes. Embora o crescimento dos picolés e do sorvete soft seja notável, o formato em pote continua sendo o protagonista, respondendo por quase três quartos da preferência nacional.
Com um consumo médio de 7,7 litros por habitante ao ano, o sorvete se consolida como um prazer acessível. É um dos poucos itens que consegue transitar com a mesma força entre diferentes classes sociais, oferecendo um momento de indulgência que cabe no bolso, independentemente da faixa de renda.
A inovação vista na Itália não ficou restrita aos ingredientes. Notei um avanço significativo em maquinários compactos e acessíveis, além de carrocerias isotérmicas de última geração. Isso é um divisor de águas: significa que a tecnologia de ponta, antes exclusiva das gigantes, agora está ao alcance da sorveteria de bairro e do pequeno produtor. A qualidade vai se democratizar, elevando a régua de todo o mercado brasileiro.
Meu olhar para este ano é de puro entusiasmo. O sorvete em 2026 continuará refrescando o corpo, mas sua principal função será provocar sensações. Seja através da crocância exótica de Dubai ou do calor inesperado de uma manga com pimenta, estamos prontos para transformar o ato de tomar sorvete em um evento memorável.