A automação é um processo que pode se tornar caro para o empreendedor, principalmente se ele comprar aquilo que não deve e demitir funcionários eficientes. O resultado pode ser uma operação desequilibrada, além de desfalques no caixa e percepção equivocada de que a automação não funciona. 

“O empreendedor vai a uma feira, vê algo e diz ‘ah, gostei desse robozinho e dá para comprar’. Aí, quando coloca para rodar, geralmente, não funciona da maneira esperada. Dali 15 dias o robozinho está dentro do armário, largado. Aí a visão que se cria é que a tecnologia não funciona. Isso acontece com muita frequência e é na verdade a inversão da lógica”, diz Claudio Cordeiro, que é diretor de Hotelaria e Food da companhia. 

A ideia é inverter esse processo para ter o melhor resultado possível. A sugestão do executivo é primeiro entender o gargalo da empresa e o que pode resolver. Em seguida, identificar quais funcionários vão operar aquela tecnologia e como capacitar a pessoa para isso. Só depois entra a escolha da solução. E há muitas boas opções no mercado para diferentes missões, inclusive, auxiliar a mão de obra, que hoje é um dos pontos de aumento de custos das empresas do setor de Food.

“Com certeza, a automação é uma solução importante porque reduz a necessidade de mão de obra em determinadas funções”, diz Cordeiro. Porém, o executivo alerta que é preciso considerar que algumas atividades ainda carecem do toque humano. “Nem toda a população está preparada para usar essas tecnologias”, acrescenta. “A automação deve vir como complemento e não como substituição total”, arremata o executivo.

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Com relação à gestão de custos e aumento de rentabilidade, um dos grandes desafios do setor tem sido o aumento do custo da mão de obra. Como a automação tem atuado para reduzir esses custos?

Com certeza, a automação é uma solução importante porque reduz a necessidade de mão de obra em determinadas funções. Mas não é só isso. A eficiência na gestão também é fundamental.

Por exemplo, se você tem um processo de compras mais eficiente, isso gera economia. O mesmo vale para uma boa gestão de estoque. Esses são processos que podem ser otimizados para aumentar produtividade e performance.

Desde coisas simples, como um sistema de ponto com reconhecimento facial, até inventário automatizado — há várias soluções que apoiam o setor. Isso reduz custos e aumenta a margem.

Por outro lado, há também soluções voltadas para o aumento de receita: cardápios digitais, canais de e-commerce, totens de autoatendimento. Tudo isso contribui para uma experiência mais fluida e, consequentemente, melhores margens.

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E isso tem relação direta com o tipo de função que a automação substitui — tarefas repetitivas, que não exigem presença humana.

Exatamente. Automação substitui o que não exige o toque humano. Por exemplo, o tempo que se gasta com processos para iniciar um pedido não é atendimento. A automatização disso libera os colaboradores para se dedicarem à hospitalidade, à experiência do cliente.

Mas vale lembrar que nem toda a população está preparada para usar essas tecnologias. Antigamente, talvez metade do público tivesse dificuldade. Hoje, uns 98% já estão acostumados a usar totens no McDonald ‘s, por exemplo. Ainda assim, há pessoas que enfrentam barreiras.

Havia gargalos para automação, incluindo a aceitação do público. O cardápio digital, por exemplo, enfrentava resistência. Hoje, como isso está? Você comentou que muita gente já se acostumou, até por influência de redes como McDonald ‘s. Mas e os gargalos? Como a indústria tem resolvido isso?

A aceitação aumentou bastante, especialmente entre as gerações mais jovens, que valorizam agilidade e praticidade. Muitas vezes, querem resolver tudo pelo próprio celular.

Mas ainda existem exceções. Outro dia, fui a um restaurante com amigos e uma pessoa do grupo — com cerca de 40 anos — disse: ‘Cara, eu odeio o cardápio digital, gosto de pegar o papel, ver com calma’. E o restaurante só tinha o digital. Isso mostra que, apesar da automação ser ótima, é interessante manter opções físicas também.

Assim como existem adaptações para pessoas com deficiência, como cardápios em braile, faz sentido oferecer o cardápio impresso para quem prefere. A automação deve vir como complemento, não como substituição total.

Falando do setor de bares e restaurantes, que é um grande empregador, como a automação lida com essa questão? Há sempre aquele receio: “Vamos automatizar e os empregos, como ficam?”

Esse é um ponto importante. A lógica é: você pode aumentar sua fatia do bolo ou pode fazer o bolo crescer.

A automação ajuda a aumentar a produtividade e, com isso, o negócio cresce. Então, mesmo que você reduza o número de funcionários por unidade, o crescimento pode gerar mais empregos.

Dou um exemplo simples: você tem dez funcionários e não tem lucro. O negócio vai ficar estagnado. Mas, se com sete funcionários você obtém lucro e consegue abrir um segundo restaurante, você dobra os empregos. 

E o mercado tem crescido. É só observar: os restaurantes estão cheios. O perfil do consumidor mudou — come-se mais fora, há mais pedidos via delivery. Isso tudo faz o “bolo” crescer e surgem novas oportunidades de emprego.

Quais erros que os empreendedores têm cometido no processo de automação? 

Você tem que primeiro entender o que você quer resolver, pensar em quem vai operar aquela tecnologia e capacitar a pessoa para isso. E, depois, escolher uma solução adequada. O que normalmente é feito é comprar uma solução, implantar essa solução e só depois ver quem vai usar e como vai operar. Isso acaba não trazendo a melhor performance.

O ideal é o contrário: pensar no problema, o que pode trazer a solução e, aí sim, buscar a melhor ferramenta. Aí a eficiência é muito maior. O que acontece em grande parte das vezes. O empreendedor vai a uma feira, vê algo e diz ‘ah, gostei desse robozinho e dá para comprar’. Aí, quando coloca para rodar, geralmente, não funciona da maneira esperada. Dali 15 dias o robozinho está dentro do armário, largado. Aí a visão que se cria é que a tecnologia não funciona. Isso acontece com muita frequência e é na verdade a inversão da lógica.