O mercado de suplementos e a ciência da nutrição se movem em ciclos bem definidos. Por décadas, a proteína ocupou o posto de nutriente protagonista, associada à performance, à estética e ao ganho de massa magra. Esse foco cumpriu um papel fundamental na consolidação do setor, mas 2025 deixou claro que entramos em uma nova fase.
O consumidor amadureceu, ampliou seu repertório e passou a buscar soluções mais holísticas, conectadas à saúde metabólica, à longevidade e ao equilíbrio intestinal. Com isso, a fibra alimentar, um nutriente historicamente subestimado, começa a ocupar o centro do palco.
A pergunta que se impõe para profissionais de P&D, formuladores e especialistas em saúde não é apenas se a fibra ganhará mais espaço, mas se ela poderá assumir, em relevância de mercado, um papel comparável ao que a proteína exerceu nos últimos anos. Quando analisamos comportamento de consumo, desafios nutricionais e megatendências globais, a resposta começa a se desenhar com bastante clareza.
Leia mais: Os pilares que definiram o mercado de suplementos no Brasil, e o que esperar em 2026: As fibras serão a nova proteína? O próximo ciclo de protagonismo na nutrição funcionalOs números ajudam a dimensionar esse desafio. A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde recomendam uma ingestão diária entre 25 g e 30 g de fibras para adultos saudáveis. Trata-se de uma meta bem estabelecida do ponto de vista científico, mas distante da realidade da maioria da população brasileira. A rotina acelerada, o menor consumo de alimentos in natura e a busca constante por praticidade criam um gap estrutural entre recomendação e consumo efetivo.
Quando traduzimos essa recomendação em alimentos, o desafio fica ainda mais evidente. Para atingir cerca de 25 g de fibras apenas com fontes naturais, seria necessário, por exemplo, consumir aproximadamente seis maçãs médias com casca, nove porções de brócolis cozido, quatro conchas de feijão preto ou quase três mangas inteiras ao longo do dia.
Embora o consumo de frutas, legumes e verduras seja a base de uma alimentação equilibrada, manter esse volume de forma consistente representa um obstáculo logístico, sensorial e até calórico para o consumidor médio. É exatamente nesse ponto que a suplementação passa a se tornar estratégica.
Mas reduzir o papel da fibra à saúde intestinal seria um erro de leitura de mercado. O verdadeiro potencial desse nutriente está em seus efeitos sistêmicos, perfeitamente alinhados às grandes tendências que moldam o setor hoje. Um dos pilares mais relevantes é o aumento da saciedade.
Fibras solúveis formam géis no trato digestivo, retardando o esvaziamento gástrico, modulando a absorção de glicose, regulando a resposta insulínica e prolongando a sensação de plenitude. Esse mecanismo é central para o manejo de peso e, sobretudo, para estratégias nutricionais associadas ao uso de medicamentos agonistas de GLP-1, em que a adequação de nutrientes e o controle do apetite se tornam críticos. A fibra passa, então, a atuar como um elemento de inteligência metabólica, e não só como reguladora intestinal.
Assim como vimos em 2025 a evolução dos formatos, com géis, gomas e soluções prontas para consumo, a inovação em fibras avança na dosagem e na funcionalidade. O foco deixa de ser “mais fibra” e passa a ser “fibra melhor formulada”. Combinações de fibras solúveis e insolúveis, ingredientes com efeitos prebióticos e soluções que não comprometem sabor, textura ou experiência sensorial ganham protagonismo.
Há ainda o cuidado na forma de entrega. Fibras discretas, facilmente incorporadas a bebidas, shakes ou alimentos do dia a dia, respondem diretamente à demanda por conveniência. Ao mesmo tempo, cresce a exigência por evidência científica sólida, especialmente em um ambiente regulatório mais rigoroso, impulsionado por normativas como a RDC 990/2025.
Ao olhar para 2026 e além, fica claro que a fibra alimentar transcendeu seu papel histórico, se estabelecendo como um dos pilares estratégicos da saúde metabólica. Não se trata de substituir a proteína, mas de reconhecer que o futuro do mercado de suplementos será construído sobre uma visão mais diversa e cientificamente orientada da nutrição.
Diante disso, acredito que o setor que prosperará será aquele capaz de traduzir a complexidade da ciência das fibras em soluções práticas, confiáveis e alinhadas às necessidades reais do consumidor. Crescer, daqui para frente, é pensar em crescer melhor e não sobre vender mais. E, nesse novo ciclo, a fibra passa de coadjuvante para um papel central na evolução do mercado.