A expressão “Clean Label” tem conquistado cada vez mais espaço entre consumidores e influenciadores, apesar de ainda não possuir uma definição única e universal. Segundo a Associação Brasileira de Nutrologia, o termo “Clean Label” (ou rótulo limpo) representa um movimento de mercado que valoriza produtos com listas de ingredientes reduzidas, simples e de fácil compreensão, eliminando aditivos artificiais, conservantes sintéticos e nomes químicos complexos.

Enquanto a indústria avança em iniciativas como a redução de açúcar, gordura e sódio, novos questionamentos emergem sobre os ingredientes substitutos, sua naturalidade e segurança, conforme apontado pela Agenda MAHA. Especialistas afirmam que a reformulação de produtos deixou de ser apenas um desafio técnico e tornou-se também uma questão de percepção.

Durante o painel “Clean Label e Reformulação”, realizado no palco da Summit Future of Nutrition na 28ª edição da Fi South America, especialistas discutiram os desafios e oportunidades relacionados ao tema. O debate reuniu nomes como Juliana Peccin, Gerente Sênior de Health & Nutrition Science para a América Latina da Pepsico; Fernanda de Oliveira Martins, Gerente da Unilever; Johannes Newton do Prado, Diretor de P&D da Polpa Brasil; e Sara Faria, Proprietária e Empreendedora da Solucionária, sob a mediação de Lara Natacci, PhD e Diretora da Clínica Dietnet Nutrição Saúde e Bem-Estar.

O painel enfatizou a necessidade de educar o consumidor sobre o conceito de “Clean Label” e os esforços da indústria para atender às crescentes demandas por transparência e simplicidade. A grande questão que se coloca é: como equilibrar a ciência, a viabilidade industrial e a pressão crescente por confiança e transparência?

A gerente da Unilever, Fernanda, destaca que o aditivo é tudo aquilo que vc inclui sem nenhum ganho nutritivo ou para a segurança dos alimentos. E dá exemplos que há diversos tipos e funções para cada um deles. Ela exemplifica com uma analogia a acessórios que usamos no dia a dia, como um brinco que tem como função apenas estética ou como o cinto que está alí para segurar a calça. “Um antioxidante, por exemplo, pode ser essencial para proteger um produto que será consumido após um longo período, assim como um óculos de sol é indispensável para dirigir sob o sol. A segurança do alimento é fundamental, e a própria OMS e FAO afirmam: ‘Se não é seguro, não é alimento’.”

E acrescenta: “De forma geral, entende-se como alimentos com listas de ingredientes mais limpas, sem aditivos alimentares. Mas é importante lembrar que os aditivos têm funções importantes, como garantir a segurança e a durabilidade dos produtos”, disse.

Fernanda destaca que a formulação de um produto é uma jornada. “Não é algo imediato, de um único ponto. Essa jornada é guiada pela ciência, pela tecnologia, mas também pelo consumidor. O que ele quer e o que ele precisa orienta o desenvolvimento desses produtos”.

Expectativa dos consumidores x realidade da indústria

Embora a ciência e a tecnologia sejam previsíveis e evoluam a longo prazo, as demandas dos consumidores podem surgir de forma inesperada. “Pode ser uma influência de um influenciador nas redes sociais ou algo visto em outro país que muda o contexto. A parte do consumidor é a menos previsível e, às vezes, traz algo que não necessariamente está alinhado com a ciência e tecnologia”, afirmou a gerente da Unilever.

Fernanda também alertou sobre os desafios de educar os consumidores. “Muitas vezes, o consumidor não entende para que serve o aditivo ou a diferença entre eles. Isso gera desinformação. Como indústria, temos a responsabilidade de educar sobre alimentos e ingredientes, para que as demandas estejam mais alinhadas com evidências científicas”, enfatizou.

Para Fernanda, o grande desafio da indústria é equilibrar ciência, tecnologia e as expectativas dos consumidores. “Se a necessidade do consumidor não está alinhada com a ciência e tecnologia, fica muito mais difícil formular produtos que atendam a esses três pilares. É uma linha tênue que exige responsabilidade e diálogo constante”.

“Menos ingredientes não é garantia de produto melhor”, afirma lara Natacci.

PepsiCo e a jornada de reformulação: como equilibrar sabor, saúde e tecnologia

Para Juliana Peccin, da PepsiCo, a reformulação de produtos alimentícios para atender às demandas de saúde e nutrição é uma jornada complexa, que exige equilíbrio entre ciência, tecnologia e as expectativas dos consumidores.

A redução de nutrientes críticos, como sódio, gordura saturada e açúcar, é uma prioridade para a PepsiCo desde 2006. “Essa jornada não começou com a legislação da lupa. Desde 2006, temos critérios nutricionais internos e, a partir de 2010, firmamos acordos voluntários com o Ministério da Saúde para reduzir sódio e outros nutrientes em categorias de alimentos que fazem sentido”, destacou.

Ela conta que um dos maiores desafios enfrentados pela empresa é reduzir esses nutrientes sem alterar o sabor dos produtos já conhecidos e amados pelos consumidores. “É muito fácil lançar um produto novo com menos sódio e poucos ingredientes, como o PopCorners. Mas como reduzir o sódio na Ruffles ou no Doritos Nacho, que são produtos de grande escala e que todo mundo conhece? É um trabalho que exige muita pesquisa e desenvolvimento junto ao consumidor”, afirmou.

Juliana explicou que a redução de sódio, por exemplo, é feita de forma gradativa para que o consumidor não perceba mudanças bruscas no sabor. “A gente vai mostrando para o consumidor, testando amostras e construindo juntos um produto com menos sódio, mas com o sabor que ele tanto conhece. É uma jornada nada simples”, disse.

Além disso, a reformulação exige soluções tecnológicas específicas para cada categoria de produto. “Quando reduzimos açúcar em uma bebida, é menos complexo, porque o açúcar não traz corpo ao produto. Mas em um biscoito, o açúcar é essencial para a estrutura. Então, precisamos substituir por ingredientes que mantenham o corpo do produto, o que pode aumentar a lista de ingredientes”, explicou a especialista.

A legislação da lupa, que exige selos de alerta para produtos com altos níveis de sódio, gordura saturada e açúcar, trouxe um diferencial competitivo para a PepsiCo. “Hoje, 90% do nosso portfólio não possui nenhum selo na frente da embalagem. Mas isso não aconteceu por causa da legislação. Já vínhamos em uma jornada longa de redução desses nutrientes”, destacou.

Juliana também enfatizou a importância de educar os consumidores sobre nutrição e leitura de rótulos. “Nutrição parece ser algo que todo mundo sabe um pouco, mas é nosso papel ensinar o consumidor a ler a lista de ingredientes e a tabela nutricional. Queremos consumidores informados, educados e saudáveis”, afirmou.

Clean Label e a realidade da inovação alimentar: desafios e soluções

Sara Faria, fundadora da Solucionário e da Alcott Co., tem desafiado o status quo da indústria alimentícia com projetos inovadores que unem ciência, saúde e propósito. Entre suas criações está a Salt Way, a primeira proteína culinária salgada do Brasil, que revolucionou o mercado com um novo formato de consumo. No bate papo ela compartilhou sua experiência em educar clientes e consumidores sobre a complexidade da formulação de alimentos.

“A Solucionário é um setor de pesquisa e desenvolvimento externo. Trabalhamos com multinacionais, mas 90% dos nossos clientes são pessoas físicas que querem lançar seus próprios negócios. A educação do consumidor começa com os meus clientes, que chegam com ideias idealizadas, como produtos totalmente naturais que precisam durar um ano”, explicou Sara.

Segundo ela, o processo de desenvolvimento de produtos envolve transformar sonhos em soluções viáveis e escaláveis, respeitando normas regulatórias e garantindo a segurança alimentar. “Eu digo para os clientes: ‘Sonhem à vontade no briefing inicial, mas eu vou pegar o seu sonho e viabilizá-lo’. No laboratório, eles acompanham toda a jornada e entendem que aquilo que idealizaram nem sempre é possível a longo prazo”, afirmou.

Sara destacou que muitos clientes chegam com resistência ao uso de aditivos, mas acabam compreendendo sua importância ao longo do processo. “Por exemplo, querem um produto sem aditivos que dure um ano. Eu mostro que, sem aditivos, ele vai durar apenas uma semana. Então, explico a função de cada ingrediente, como a lecitina de girassol, que é natural e essencial para a estabilidade do produto. Ensino que é possível comunicar isso ao consumidor de forma clara e transparente”, disse.

A fundadora também abordou os equívocos comuns sobre o Clean Label. “Muitos acham que Clean Label é sinônimo de saudável, sustentável e natural, tudo junto. Mas nem sempre é assim. Um produto com poucos ingredientes pode ter lupas de alerta e não ser necessariamente mais saudável ou sustentável. É preciso educar o consumidor para entender o que está por trás da formulação”, explicou.

Para a gestora o papel da indústria vai além de atender às demandas do consumidor. “Eu oriento meus clientes a educarem seus consumidores sobre os ingredientes e suas funções. A desinformação surge quando não há diálogo. É possível criar produtos inovadores e atender às expectativas do mercado, mas isso exige transparência, ciência e muita comunicação”, complementou.

Concessões na busca por produtos naturais e sustentáveis

Johannes Newton do Prado, bioquímico e tecnólogo de alimentos com mais de 15 anos de experiência, da Polpa Brasil compartilhou os desafios enfrentados pela indústria alimentícia ao buscar produtos com menos ingredientes, sem conservantes e sem açúcar, equilibrando sabor, segurança, vida útil, custo e sustentabilidade.

“Na Polpa Brasil, trabalhamos com o desenvolvimento de soluções naturais para a indústria alimentícia, utilizando frutas e vegetais. Nosso objetivo é encontrar formas de aumentar o shelf life de produtos industrializados, utilizando ingredientes naturais”, explicou Johannes.

Ele destacou que quanto menor a lista de ingredientes, maior a complexidade do desenvolvimento. “A indústria precisa equilibrar viabilidade econômica, engenharia de processos e ciência para atender às demandas do consumidor, que muitas vezes nem sabe exatamente o que quer. O consumidor deseja um produto natural, com poucos ingredientes e baixo custo, mas essa conta não fecha facilmente”, afirmou.

Johannes ressaltou que o desenvolvimento de produtos Clean Label exige concessões em diversos atributos. “A pergunta não é qual ingrediente devo tirar, mas qual atributo posso penalizar menos. Por exemplo, não podemos fazer concessões em segurança alimentar, regulatório ou credibilidade da informação. Mas podemos ajustar o shelf life, o sabor ou a complexidade industrial”, explicou.

A variabilidade dos ingredientes naturais também é um desafio. “Produtos naturais têm características que variam ao longo do tempo. O consumidor precisa entender que o sabor ou a textura podem mudar, e isso exige educação. Além disso, para garantir a estabilidade de um produto por 8 ou 12 meses, é necessário substituir funções dos ingredientes retirados por outras tecnologias ou insumos”, disse Johannes.

Outro ponto crítico citado pelo especialista é o custo. “Trabalhar com matérias-primas mais puras e naturais aumenta o custo produtivo, pois exige mais controles e maior complexidade industrial. O custo é determinante para que o consumidor veja o produto como viável”, destacou.

Johannes também enfatizou a importância de buscar equilíbrio entre sabor, sustentabilidade e viabilidade. “A sustentabilidade pode ser comprometida se o produto tiver uma vida útil curta. Nesse caso, é possível trabalhar com tecnologias de embalagens ou outras soluções para aumentar o shelf life sem comprometer a naturalidade”, afirmou.

Para Johannes, o objetivo é sempre entregar soluções que façam sentido para o mercado e para o consumidor.

O mercado clean label no exterior

De acordo com os participantes, alguns países têm maior aceitação e entendimento sobre produtos com validade reduzida e menos aditivos. “Na Europa, há uma cultura já bem instalada que valoriza produtos naturais, mesmo com menor shelf life. Por outro lado, no Brasil, enfrentamos limitações logísticas, culturais e climáticas que dificultam a distribuição de produtos sem conservantes em regiões como o Norte e Nordeste”, explicou Sara Faria, fundadora da Solucionário.

Johannes Newton do Prado, da Polpa Brasil, complementou que a variabilidade dos ingredientes naturais é um desafio adicional. “Produtos naturais têm características que mudam ao longo do tempo. O consumidor precisa entender que o sabor ou a textura podem variar, e isso exige educação. Além disso, para garantir a estabilidade de um produto por 8 ou 12 meses, é necessário substituir funções dos ingredientes retirados por outras tecnologias ou insumos”, afirmou.

Terrorismo nutricional e educação do consumidor

Os especialistas concordaram que mesmo diante o impacto do “terrorismo nutricional” a indústria deve ter orgulho de suas conquistas e abrir o diálogo com consumidores, governos e outros atores do setor. “Precisamos nos orgulhar dos produtos que desenvolvemos, das tecnologias e processos que garantem segurança e qualidade. É essencial abrir a discussão e buscar soluções que façam sentido para todos”, afirmou Johannes.

Fernanda complementou: “Devemos comunicar com orgulho tudo o que já alcançamos em inovação e ciência, sem nos escondermos atrás de modismos. A transparência é fundamental para educar e informar o consumidor.”

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