O modelo linear de produção, baseado em extrair, produzir e descartar, gera consumo elevado de matérias-primas, água e energia, além de resíduos e subprodutos. Na indústria de alimentos e bebidas, esses fatores representam custos e impactos que podem ser reduzidos.

A economia circular na indústria de alimentos busca manter recursos e materiais em uso pelo maior tempo possível, reduzindo desperdícios e reinserindo resíduos e subprodutos na cadeia produtiva quando houver viabilidade técnica e econômica. 

No Brasil, essa transição ganhou relevância com a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC) e o Plano Nacional de Economia Circular 2025–2034, que orientam ações para melhorar o uso de recursos, recuperar materiais e ampliar o aproveitamento dos produtos ao longo de seu ciclo de vida.

Como aplicar a economia circular na indústria de alimentos e bebidas?

A aplicação pode ser implementada de forma gradual, priorizando processos com maior potencial de reduzir desperdícios, custos e consumo de recursos. 

No Brasil, a Estratégia Nacional de Economia Circular e o Plano Nacional de Economia Circular 2025–2034 orientam ações para aumentar a eficiência no uso de recursos, reduzir perdas e ampliar a recuperação de materiais.

Redesenho de produtos e processos

A circularidade começa no desenvolvimento. Formulações que aproveitam melhor as matérias-primas e processos que geram menos perdas aumentam a eficiência e reduzem custos.

O mesmo princípio vale para as embalagens. Projetá-las para facilitar reutilização, separação e reciclagem desde o início favorece a recuperação dos materiais.

Também é possível reduzir o uso de matérias-primas virgens incorporando subprodutos de outros processos quando houver viabilidade técnica, sanitária e econômica.

Aproveitamento de resíduos e subprodutos

O aproveitamento permite transformar materiais que seriam descartados em ingredientes, insumos ou novos produtos.

A prioridade é direcionar cada subproduto para a aplicação de maior valor possível:

  • Frutas: cascas, bagaços e sementes podem originar fibras, extratos, ingredientes e bebidas.
  • Cereais: farelo e gérmen podem ser aproveitados como fontes de proteínas e fibras.
  • Cana-de-açúcar: o bagaço pode gerar energia e biomateriais.
  • Carnes e aves: coprodutos podem ser transformados em farinhas, colágeno e gorduras para uso industrial.

O upcycling na indústria alimentícia reúne exemplos de reaproveitamento de subprodutos com potencial de geração de valor.

Uma pilha de resíduos alimentares e restos orgânicos sobre fundo branco, incluindo cascas de banana, rodelas de cenoura e folhas verdes.

Reuso e eficiência hídrica

A eficiência hídrica na indústria de alimentos começa pelo monitoramento do consumo em etapas como lavagem, resfriamento, cocção e higienização.

O tratamento e o reuso de efluentes podem reduzir a captação de água, desde que a qualidade da água recuperada seja adequada ao uso pretendido e atenda aos requisitos aplicáveis.

Medir o consumo por etapa ajuda a identificar perdas e direcionar investimentos para os processos com maior potencial de economia.

Relacionado: Gestão sustentável em frigoríficos: como reduzir consumo de água e energia: Como aplicar a economia circular na indústria de alimentos e bebidas

Eficiência energética

A economia circular também envolve o uso mais eficiente da energia. Recuperar o calor residual de fornos, caldeiras e pasteurizadores permite reaproveitá-lo em outras etapas da produção.

O biogás gerado no tratamento de efluentes orgânicos também pode ser utilizado como fonte de energia. Já equipamentos eficientes e manutenção preditiva ajudam a reduzir o consumo por unidade produzida e evitar perdas operacionais.

Um exemplo de aplicação é o caso da Kraft Heinz, que relaciona circularidade à redução de emissões e resíduos na logística.

Embalagens e logística reversa

As embalagens oferecem oportunidades para reduzir o consumo de materiais e ampliar a recuperação de recursos. Entre as estratégias estão:

  • Reduzir a quantidade de material utilizado;
  • Incorporar conteúdo reciclado quando tecnicamente adequado;
  • Facilitar a separação dos componentes;
  • Projetar embalagens para reciclagem ou reutilização;
  • Estruturar sistemas de logística reversa.

A circularidade deve ser considerada desde o desenvolvimento da embalagem. Materiais difíceis de separar ou recuperar podem limitar a reciclagem após o consumo.

Por isso, soluções de embalagens sustentáveis devem considerar todo o ciclo de vida do produto, da fabricação ao pós-consumo.

Relacionado: [Ebook] Design de embalagens positivas: Como aplicar a economia circular na indústria de alimentos e bebidas

Quais são os principais benefícios da economia circular para a indústria?

A economia circular pode reduzir desperdícios, custos e consumo de recursos, além de criar novas fontes de receita. Para medir os resultados, cada iniciativa deve ser associada a indicadores operacionais, financeiros e ambientais. 

BenefícioComo contribui Indicador
Menos desperdícioReaproveitamento de resíduos e subprodutos kg de resíduos/kg produzido
Menor custoRedução do consumo de insumos e matérias-primas R$/unidade produzida
Eficiência hídricaTratamento e reuso de água L/kg produzido 
Eficiência energéticaRecuperação de calor e otimização de processos kWh/unidade 
Novas receitasTransformação de resíduos em coprodutos Receita com subprodutos 
Menor impacto ambientalRedução do uso de recursos e das emissões kg CO₂e/unidade 

Aproveitamento de resíduos: onde está o valor?

O aproveitamento de resíduos é uma das formas mais diretas de aplicar a economia circular na indústria de alimentos. 

Materiais que seriam descartados podem retornar ao processo produtivo ou ser destinados a outras cadeias como ingredientes, ração, insumos industriais ou fontes de energia.

O primeiro passo é:

  • mapear os resíduos gerados, 
  • avaliar suas características 
  • e identificar aplicações técnica e economicamente viáveis. 

Assim, um material que antes representava apenas um custo pode se transformar em matéria-prima ou nova fonte de receita.

Uma mulher vestida com jaleco branco supervisionando a produção industrial de alimentos em uma esteira rolante carregada de hambúrgueres empanados.

Resíduo pode se tornar matéria-prima

O upcycling na indústria de alimentos consiste em criar aplicações de maior valor para materiais que seriam descartados.

Um exemplo é a parceria entre a Unicamp e a Upcycling Solutions, que desenvolveu um pão funcional com farinha de casca de jabuticaba. O caso demonstra como um subproduto da indústria de sucos e polpas pode ser transformado em ingrediente para um novo alimento.

Quais resíduos podem ser aproveitados? 

As possibilidades dependem das características da matéria-prima e do processo produtivo:

  • Frutas: cascas, bagaços e sementes podem originar farinhas, fibras, extratos e bebidas.
  • Cereais: farelos, gérmen e resíduos de moagem podem ser aproveitados como fontes de proteínas e fibras.
  • Cana-de-açúcar: bagaço e vinhaça podem ter aplicações energéticas, agrícolas e industriais, conforme as características do processo.
  • Carnes e aves: ossos, cartilagens e peles podem ser utilizados na produção de colágeno, farinhas proteicas e gorduras.

A viabilidade do reaproveitamento deve considerar segurança dos alimentos, requisitos regulatórios, logística, custos de processamento e demanda pelo novo produto. Nem todo resíduo possui viabilidade técnica ou econômica para ser transformado em um novo produto. 

Economia circular e embalagens: como reduzir impactos sem perder eficiência?

As embalagens podem contribuir para a economia circular quando são projetadas para usar menos recursos, preservar o alimento e facilitar a recuperação dos materiais. 

  • Redução de materiais: diminuir peso e volume sem comprometer a proteção do produto reduz o consumo de matéria-prima, os custos e os impactos associados à embalagem.
  • Reciclabilidade e conteúdo reciclado: materiais fáceis de separar e reciclar favorecem a recuperação após o consumo. O uso de conteúdo reciclado também reduz a demanda por matéria-prima virgem.
  • Reutilização: embalagens retornáveis e reutilizáveis podem ser viáveis quando existem sistemas eficientes de coleta, higienização e retorno.
  • Logística reversa: permite recolher embalagens pós-consumo e encaminhá-las para reutilização, reciclagem ou outra forma de recuperação. No Brasil, a prática integra a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).
  • Design para circularidade: reciclabilidade, reutilização e recuperação devem ser consideradas desde o desenvolvimento da embalagem.

Tecnologias que combinam materiais reciclados, automação e monitoramento também podem melhorar o desempenho operacional e reduzir o consumo de recursos.

Como medir os resultados da economia circular?

A definição de indicadores de economia circular permite verificar se as iniciativas realmente reduzem desperdícios, economizam recursos e geram retorno financeiro.

Os principais indicadores podem ser divididos em cinco dimensões:

Resíduos e materiais 

Acompanhe a quantidade de resíduos gerados por kg de produto, a taxa de reaproveitamento e o percentual destinado a aterros. Também é útil monitorar a redução no uso de matérias-primas virgens.

Estratégias de upcycling podem ser avaliadas por meio da quantidade de subprodutos recuperados e da receita gerada com sua valorização.

Água e energia 

Indicadores como consumo de água por kg produzido, percentual de água reutilizada e consumo de energia por unidade produzida ajudam a identificar perdas e medir os ganhos obtidos após mudanças no processo.

A eficiência hídrica é um exemplo de frente que pode ser acompanhada por indicadores de consumo e redução de custos.

Retorno econômico

Projetos de economia circular também devem ser avaliados financeiramente. Entre os indicadores estão:

  • custo evitado com matérias-primas;
  • economia de água e energia;
  • receita obtida com subprodutos;
  • ROI;
  • payback do investimento.

Impacto ambiental 

Emissões de gases de efeito estufa, pegada de carbono, pegada hídrica e consumo de matérias-primas virgens complementam a análise. Esses dados ajudam a acompanhar metas ambientais e demonstrar resultados a clientes, investidores e demais stakeholders

DimensãoIndicadorO que medir
ResíduosTaxa de reaproveitamento% recuperado do total gerado
Materiais Uso de matéria-prima virgem % do total utilizado 
ÁguaIntensidade hídricaL/kg produzido
EnergiaIntensidade energéticakWh/kg produzido
EconomiaCusto evitadoR$ por período
ReceitaValorização de coprodutosR$ gerado com subprodutos
CarbonoEmissõeskg CO₂e por unidade

A sustentabilidade pode ser acompanhada de forma mais consistente quando esses indicadores são integrados aos dados operacionais e financeiros da empresa. 

Exemplos de economia circular na indústria de alimentos e bebidas

Empresas do setor já aplicam princípios de economia circular para reduzir o consumo de recursos, reaproveitar materiais e melhorar a eficiência operacional. Os casos abaixo mostram diferentes caminhos para colocar a circularidade em prática. 

PepsiCo: reúso de água em fábrica de Itu

A unidade da PepsiCo em Itu (SP) alcançou autonomia hídrica em 2023 ao tratar e potabilizar o efluente industrial em uma estação própria. O sistema combina biorreatores com membranas e osmose reversa e trata cerca de 700 mil litros de efluentes por dia.

Segundo a empresa, a iniciativa permite economizar aproximadamente 18 milhões de litros de água por mês. O caso demonstra como o tratamento e o reúso de efluentes podem reduzir a dependência de água nova e aumentar a eficiência hídrica da indústria.

O caso da PepsiCo em Itu também evidencia a importância de combinar tecnologia, monitoramento e gestão de recursos.

Dois trabalhadores usando capacetes e roupas de proteção inspecionando e anotando dados em uma prancheta ao lado de um tanque de tratamento de água/efluents industrial.

Nestlé: embalagens recicladas e redução de plástico

A Nestlé vem aplicando princípios de circularidade no desenvolvimento de embalagens.

Em 2023, a empresa passou a produzir algumas garrafas de bebidas prontas com 50% de plástico reciclado, evitando, segundo a companhia, o uso de 563 toneladas de plástico virgem naquele ano.

Outras iniciativas incluem a redução do uso de plástico e o desenvolvimento de embalagens monomaterial recicláveis para determinados produtos.

O exemplo mostra como o design de embalagens para circularidade pode reduzir o consumo de matéria-prima virgem e facilitar a recuperação dos materiais após o uso.

Nestlé e Yattó: reciclagem de embalagens flexíveis pós-consumo

Embalagens flexíveis de biscoitos, cereais, chocolates e salgadinhos apresentam desafios de reciclagem devido à composição dos materiais e à infraestrutura disponível.

A parceria entre Nestlé e Yattó estruturou uma cadeia de recuperação desses materiais envolvendo cooperativas, operadores logísticos e recicladores. Entre 2021 e 2023, o projeto reciclou 521 toneladas de embalagens e envolveu mais de 60 cooperativas em cinco estados.

O caso reforça que a economia circular depende de mais do que materiais recicláveis: logística, escala, infraestrutura e integração entre os diferentes agentes da cadeia também são determinantes.

Um infográfico explicativo com o título "7 passos para aplicar a economia circular na indústria alimentar", contendo ícones, fotos e etapas numeradas de 1 a 7.

A economia circular na indústria de alimentos e bebidas reduz desperdícios, otimiza o uso de água, energia e matérias-primas e pode gerar novas fontes de valor. O caminho é começar pelas maiores perdas, medir os resultados e priorizar soluções com viabilidade técnica e retorno econômico.