A plenária de abertura do Summit Future of Nutrition, realizada durante a Fi South America, reuniu especialistas de diferentes setores para discutir um dos maiores desafios contemporâneos da indústria alimentícia: como equilibrar ciência, inovação e regulação em um cenário de crescente desinformação e demandas por sustentabilidade.
A moderadora Tamara Lazarini, presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), abriu o painel com uma reflexão provocativa sobre o momento atual. “Nunca produzimos tanto conhecimento científico sobre alimentos, nutrição e saúde. Ao mesmo tempo, nunca tivemos consumidores tão expostos a um enorme volume de informações, muitas vezes contraditórias, sobre o que comer”.
Segundo ela, isso levanta uma questão fundamental para o setor. “Será que o nosso maior desafio hoje é produzir mais ciência ou fazer com que a sociedade confie na ciência que já produzimos?”
O painel contou com a participação de Alexandre Novachi, diretor de Assuntos Regulatórios e Científicos da ABIA; Fátima D’Elia, Assessora Técnica da ABIAM; Igor Carneiro, Head of Partnership and Business Development da World Food Programme (WFP/ONU); e Patrícia Amaral, gerente geral de Alimentos da Anvisa.
O papel da regulação baseada em evidências
Patrícia Amaral, da Anvisa, explicou como a agência constrói suas decisões regulatórias. “A Anvisa constrói as suas decisões baseadas no conjunto das evidências científicas disponíveis”, afirmou. Ela ressaltou que “a ciência evolui, as informações disponíveis evoluem, é um trabalho contínuo e podemos reavaliar as nossas decisões”.
A gerente também destacou a importância da convergência internacional e da participação da sociedade civil e da academia no processo regulatório.
Alexandre Novachi, da ABIA, destacou que depois de transformar ciência em regulação, é preciso transformar também em informação, pois o grande desafio atual está na educação do consumidor. “O consumidor educado é um consumidor que vai confiar, que vai ter senso crítico.”
Ele também defendeu a geração de dados nacionais. “Precisamos ter informação de consumo no Brasil. A academia precisa gerar dados de consumo e dar transparência para esses dados.”
Fátima D’Elia destacou a evolução da rotulagem nutricional como facilitadora do acesso à informação. “A parte de rotulagem nutricional trouxe uma facilidade bem grande ao público, que agora sabe o que ele está comendo, ele só precisa aprender um pouquinho mais”.
A Assessora Técnica da ABIAM compartilhou a experiência da ABIAM no enfrentamento da desinformação. “O nosso maior desafio hoje é desmistificar a desinformação em relação à alimentação e à nutrição. A gente tem que explicar o que é fake, e temos o problema dos influenciadores sem base científica”.
Desafios de integração entre os setores
Quando questionada sobre o que ainda impede a integração plena entre ciência, indústria e regulação, Patrícia Amaral analisou que o ritmo da inovação é diferente em cada esfera, assim como “muitas vezes os objetivos são diferentes, embora o resultado e a finalidade seja o alimento seguro e acessível”.
A gerente da Anvisa também apontou a assimetria de informações como desafio. “Os diferentes atores têm condições e informações distintas, exatamente pela sua natureza. Os pesquisadores às vezes têm um nível de conhecimento sobre a pesquisa, mas não necessariamente sobre a regulação”. Ela reconheceu limitações estruturais. “A Anvisa não tem ainda uma estrutura suficientemente robusta para que a gente faça discussão desde o início da inovação e não apenas quando já é um protótipo, um produto”.
Segurança Alimentar Global
Igor Carneiro trouxe dados recentes do relatório de Segurança Alimentar e Nutricional das Nações Unidas, divulgado em julho. O WFP, maior agência humanitária do mundo, trabalha com mais de 123 países e atende 150 milhões de pessoas anualmente. “Nós somos o maior comprador de alimentos no mundo. Ano passado foram quase 200 milhões de toneladas”, destacou.
Os números apresentados são preocupantes. “Apesar de termos três anos consecutivos onde a fome reduziu, ainda temos 645 milhões de pessoas no mundo passando fome e mais de 2 bilhões de pessoas na insegurança alimentar moderada a grave”, revelou Igor.
O relatório deste ano focou no custo de uma dieta saudável, concluindo que “uma em cada três pessoas no mundo não tem as condições para ter acesso a uma dieta saudável”. A América Latina apresenta o custo mais caro globalmente: 4,91 dólares por dia, acima da média mundial de 4,28 dólares.
Para Igor, a solução passa pela colaboração: “Só vamos reduzir a fome no mundo se trabalharmos juntos”.
Legado para o futuro
Ao final da plenária, os palestrantes compartilharam suas visões sobre o legado desejado para os próximos dez anos. Igor Carneiro enfatizou: “gostaria que o quanto antes toda a população do mundo tivesse uma alimentação adequada, que houvesse uma forma da gente reduzir a fome, a desnutrição e a indústria vem trabalhando nessa parte de inovação de novos ingredientes para ver tudo isso acontecer o mais breve possível”.
Alexandre Novachi expressou o desejo de ver um ambiente regulatório ainda mais moderno, uma agência ainda mais forte, dinâmica e participativa. “Gostaria que, não só o setor produtivo, mas outros setores da sociedade brasileira, reconhecessem a Anvisa e valorizassem o trabalho dela, porque é ali que nasce o alimento seguro”.
Patrícia Amaral sintetizou o sentimento comum. “Que as ações que estão sendo pensadas e estão sendo executadas tenham resultados daqui a dez anos. É olhar para trás e ver que realmente transformamos do ponto de vista regulatório, nossa capacidade de responder mais efetivamente às inovações e às necessidades do setor produtivo”.
A moderadora Tamara encerrou o painel reforçando a mensagem central. “Ficou claro que nenhuma das frentes isoladamente vai resolver esses desafios da alimentação. É na convergência entre a ciência, inovação, regulação, indústria e sociedade que construiremos soluções mais seguras, sustentáveis e acessíveis para todos. A ciência gera conhecimento, a indústria transforma conhecimento em soluções, a regulação estabelece a confiança e a sociedade é a principal beneficiária quando esses três pilares trabalham de forma integrada”.
O debate evidenciou que o futuro da alimentação depende fundamentalmente da colaboração entre todos os setores, da valorização da ciência baseada em evidências e do compromisso com a transparência e educação do consumidor. Em um cenário de crescentes desafios globais, a integração entre academia, indústria, órgãos reguladores e sociedade civil emerge como o único caminho viável para garantir segurança alimentar, sustentabilidade e inovação responsável.