Como criar um plano de sustentabilidade para a sua indústria

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Criar plano de sustentabilidade industrial é fundamental para se alinhar à legislação, às exigências do consumidor e para ter uma operação mais custo-eficiente.

A sustentabilidade na indústria de alimentos e bebidas é uma questão estratégica importante para todas as partes interessadas envolvidas na cadeia de abastecimento, desde a agricultura, fabricação de ingredientes, fabricação de produtos, embalagem e distribuição até os consumidores. Nesse contexto, criar plano de sustentabilidade industrial é algo crucial para essa indústria atualmente.

Nesse ponto, é fundamental considerar que produtos com atributos sustentáveis englobam uma série de fatores, incluindo como eles são produzidos, distribuídos, embalados e consumidos "Ou seja, para que o alimento seja 'sustentável', ele deve vir de uma cadeia produtiva com práticas agrícolas sustentáveis, de baixo impacto ambiental, onde o bem-estar animal seja garantido, que proteja a saúde pública e que envolva boas práticas de emprego e apoio comunitário", explica Flávia Santos, engenheira de alimentos e mestre em ciência e tecnologia de alimentos.

Criar plano de sustentabilidade industrial: por que isso é importante?

Um estudo publicado no New Scientist apontou que a indústria de alimentos está atrás em termos de sustentabilidade e desempenho ambiental em comparação com as demais indústrias avaliadas. Alguns fatores por trás disso referem-se a impactos gerados nessa cadeia produtiva. Por exemplo, estima-se que o abastecimento de alimentos seja responsável por cerca de 20 a 30% do total das emissões de gases de efeito estufa.

Como resultado, ainda existe um desafio significativo pela frente para que a indústria de alimentos seja mais sustentável

Além disso, a indústria global de alimentos enfrenta uma pressão crescente em termos de matérias-primas, origem de ingredientes e produção de alimentos para alimentar a população crescente, em um ambiente de constante otimização e controle da cadeia de suprimentos. E tudo isso aliado à necessidade de reduzir custos e o uso de recursos, otimizar a produção e atrair e fidelizar clientes. Tais desafios são forças que motivam cada vez mais empresas para criar plano de sustentabilidade industrial.

Ainda, é importante considerar a crescente exigência do consumidor por um comprometimento com a sustentabilidade nas indústrias, motivado por uma preocupação com os impactos gerados por seu comportamento de consumo.

Isso é refletido, por exemplo, nos achados de uma recente pesquisa global do Capgemini Research Institute, que constatou que 79% dos consumidores consultados estão mudando suas preferências de consumo tendo como base a responsabilidade social e o impacto ambiental de suas escolhas. Não é à toa que a Nielsen prevê que estamos na década de comprador sustentável.

Dicas para criar um plano de sustentabilidade industrial

sustentabilidade industrial.jpgCriar um plano de sustentabilidade industrial é algo que pode ser feito de diferentes maneiras. Uma delas, conforme aponta Santos, é desenvolver o plano de sustentabilidade na indústria levando em conta a perspectiva de ciclo de vida.

"O ciclo de vida dos produtos alimentícios inclui agricultura, manufatura, embalagem, distribuição, uso e descarte. A produção agrícola normalmente é o que mais contribui para o impacto do ciclo de vida dos alimentos, normalmente, maior do que 50% da pegada ambiental. Em geral, o processamento de alimentos é o segundo contribuinte mais significativo para os impactos na cadeia de abastecimento. Os impactos da embalagem tendem a ser menores em comparação com outros componentes da cadeia de abastecimento, mas podem chegar a 20% devido à energia necessária para produzir certas embalagens. O transporte também pode ter um impacto significativo, e o uso do alimento pelo consumidor também pode contribuir para o impacto do ciclo de vida do produto", explica.

Dessa forma, a abordagem do ciclo de vida, é fundamental para criar plano de sustentabilidade industrial. A seguir, conheça algumas ações iniciais que você pode executar para desenvolver o plano de sua empresa sob essa perspectiva:

1. Agricultura

A agricultura comumente é a maior fonte de impacto ambiental dos produtos alimentícios e bebidas. Estima-se que a produção agrícola seja responsável por cerca de um terço das emissões de gases de efeito estufa induzidas pelo homem e cerca da metade das emissões geradas pelo abastecimento alimentar.

Assim, ao criar plano de sustentabilidade industrial, é importante considerar esse aspecto e buscar formas de reduzir o impacto da produção agrícola.

"Quando produtos de origem animal são utilizados, é recomendado buscar fontes com práticas de alimentação e criação menos intensivas. O uso de antibióticos administrados a animais de fazenda para promover artificialmente o crescimento, por exemplo, é algo a ser evitado nesse contexto. Para ser realmente sustentável, a indústria de alimentos deve apoiar e adquirir produtos de origem animal criados de forma humanitária e com menos intensidade", sugere Flavia Santos.

2. Produção

O processamento de alimentos é normalmente a segunda maior fonte de impacto ambiental de produtos alimentícios e bebidas e geralmente é a área em que a indústria de alimentos mais concentra seus esforços ao criar plano de sustentabilidade industrial.

Estima-se que o processamento de alimentos constitui 25% do consumo de água em todo o mundo. Além disso, estima-se que 7% do suprimento de alimentos seja desperdiçado na etapa de processamento.

Diante de números tão impactantes não apenas em termos de pegada ambiental como em desperdício de recursos, é importante buscar formas de reduzir desperdícios e custos e ter uma produção mais otimizada, custo-eficiente e sustentável ao criar plano de sustentabilidade industrial.

"O processamento de alimentos com insumos mínimos, incluindo água, matérias-primas e energia, deverá reduzir o impacto total do processamento de alimentos. Além disso, os processadores devem ter como objetivo o uso de energia renovável ou resíduos de processo para produzir energia", sugere o engenheiro ambiental André Fontes.

Medidas simples, como treinar a equipe para gerenciar os equipamentos com mais eficiência, investir em aquecimento de água com eficiência energética, trocar as lâmpadas, fazer reúso de água também devem ser consideradas.

Além disso, seguir as prescrições da norma de gestão ambiental ISO 14001: 2015, que determina os requisitos de um Sistema de Gestão Ambiental nas empresas, também é importante, como aponta o diretor da Ideia Consultoria, Maicon Putti.

"A ISO 14001 auxilia a indústria a identificar todos os impactos ambientais significativos, a aumentar o uso eficiente de materiais naturais e a impulsionar negócios por meio de uma certificação que demonstra ao mercado o comprometimento da empresa com a sustentabilidade. Também, por suas práticas, ajuda a identificar e visualizar o custo financeiro do desperdício."

3. Embalagem e descarte

A embalagem ajuda a entregar alimentos seguros e atrativos ao consumidor, porém também exerce certo impacto ambiental. Há indícios de que mais de 90% desse impacto esteja relacionado à produção dessas embalagens e um percentual menor com o descarte. 

Por isso, ao criar plano de sustentabilidade industrial, é importante buscar caminhos para tornar a produção da embalagem dos alimentos e bebidas mais sustentável, podendo-se considerar o uso de materiais recicláveis e compostáveis, filmes de embalagem comestíveis biodegradáveis e outras soluções, alinhando-se também à economia circular

Ainda, deve-se levar em conta a Lei Federal 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos - PNRS) e a logística reversa.

4. Distribuição e uso

A contribuição da distribuição e do uso no impacto ambiental dos alimentos varia bastante. As principais considerações são a distância e o modo de transporte do produto e a quantidade de energia necessária para armazenar e preparar o alimento para consumo.

"A distribuição deve ser o mais eficiente possível. O transporte aéreo de alimentos, de modo geral, é a opção de distribuição menos eficiente, já a remessa via transporte marítimo tende a ser a que apresenta menor impacto em termos de consumo de energia. Os sistemas de distribuição também devem estudar o uso de novas tecnologias e redesenhar os canais de distribuição para encontrar mais eficiência", indica Flávia Santos.

Por fim, para quem ainda tem dúvidas sobre os ganhos e os custos associados a se criar plano de sustentabilidade industrial, Santos comenta que "muitas empresas ainda têm essa percepção de que alinhar-se à sustentabilidade é algo extremamente caro. Entretanto, elas não estão considerando que esse trabalho ajuda também a diminuir custos operacionais - como os relacionados a desperdícios, resíduos e energia. Também deve-se pesar que essa é uma exigência do mercado, o consumidor quer se sentir bem com suas opções de compra e a sustentabilidade tem um papel importante nisso".

A questão do desperdício no plano de sustentabilidade na indústria

Em todas as etapas da cadeia e do ciclo de vida, também é fundamental considerar ações para reduzir o desperdício, um problema grande e comum na indústria de alimentos. 

"Atualmente, o mundo produz alimentos suficientes para todos no planeta. Porém, em apenas um ano, um cidadão da América Latina e do Caribe desperdiça 223 quilos de alimentos. Isso significa que um terço dos alimentos produzidos é transformado em lixo", alerta Martín Hagelstrom, Líder de Blockchain da IBM América Latina. De fato, o desperdício de alimentos ocorre em diversos pontos, incluindo a deterioração durante o armazenamento e transporte, incompatibilidades entre oferta e demanda nos pontos de venda e outros problemas que drenam recursos naturais e empresariais. 

Assim, ao criar plano de sustentabilidade industrial, as soluções a serem adotadas podem incluir rastreamento e análise e gerenciamento de estoque aprimorado, além de estudos para balancear a oferta e demanda desses produtos. "É aqui que tecnologias como Inteligência Artificial, Nuvem e Blockchain podem ajudar, não só no acesso, disponibilidade e desperdício de alimentos, mas também no melhor planejamento do uso dos recursos, para que o impacto ambiental seja menor ao longo da jornada dos alimentos do campo à mesa. As tecnologias ajudam a monitorar o trajeto dos alimentos desde a produção até o consumidor final. Esse monitoramento permite que produtores e empresas carreguem seus dados de produtos em uma plataforma, sabendo onde e quando um alimento passou por determinado ponto da cadeia, evitando assim a produção além da demanda e seu desperdício", finaliza Hagelstrom.

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